CAPÍTULO A — GÉNESIS
Durante um período impossível de quantificar, Arkríeus permaneceu sozinho.
Não havia estrelas, não havia espaço, não havia qualquer estrutura que permitisse medir movimento ou duração. Ainda assim, a consciência de Arkríeus percebia continuidade. Essa continuidade não era tempo no sentido comum. Era apenas a permanência absoluta de sua própria presença.
Se fosse possível traduzir essa duração para números, ela ultrapassaria qualquer escala concebível.
Mileseissecentidodecamiriódecilliocentilionetassequiunvigintiquadrigintasseticentilhão↑↑↑↑↑↑↑AΩ∞ de anos.
Mesmo essa expressão colossal ainda seria insuficiente. Porque essa duração não pertence a um universo, nem a uma cronologia física. Trata-se de uma tentativa simbólica de representar uma permanência que excede qualquer matemática.
Durante toda essa vastidão de duração, Arkríeus permaneceu vagando.
Não caminhava, pois não havia espaço.
Não atravessava distâncias, pois não havia direção.
Seu movimento era apenas uma mudança de estado dentro da própria realidade inexistente.
Ele transitava entre condições fundamentais de ser:
χάος
μηδέν
κενότητα
κενόν
Esses estados não eram lugares. Eram densidades diferentes da própria realidade primordial.
Às vezes tudo se manifestava como turbulência absoluta.
Outras vezes como ausência total.
Outras como um vazio silencioso que ainda não havia se tornado inexistência.
Durante toda essa eternidade anterior à realidade, Arkríeus permaneceu consciente.
Apeironciência.
Uma percepção ilimitada que não apenas compreendia tudo que poderia existir, mas também aquilo que ainda não possuía forma, definição ou possibilidade.
Nada estava oculto para Arkríeus, porque não existia separação entre observador e realidade. Tudo o que poderia vir a existir já estava contido como possibilidade dentro de sua consciência.
Por incontáveis eras dessa eternidade primordial, nada foi criado.
Arkríeus apenas existia.
Até que uma decisão foi tomada.
Não uma decisão motivada por necessidade, pois nada exigia mudança.
Não uma decisão causada por desejo, pois ainda não existia qualquer objeto de desejo.
Foi simplesmente um ato de manifestação.
Arkríeus decidiu tornar a existência possível.
Pela primeira vez, Arkríeus deixou o estado de pura proto-existência e manifestou-se como Existência.
Não foi criação no sentido comum.
Ele não criou a existência.
Ele se tornou a existência.
A proto-névoa primordial condensou-se.
Arkríeus reuniu suas duas mãos incorpóreas.
Essas mãos não eram feitas de matéria ou energia. Eram apenas a representação de sua vontade se concentrando em um ponto único dentro do nada absoluto.
Entre essas mãos começou a surgir algo.
Uma concentração imensa de energia cósmica.
Essa energia não era física. Não era radiação, não era matéria, não era força. Era a primeira condensação de realidade possível.
Ela cresceu.
Condensou-se.
Comprimindo dentro de si possibilidades infinitas.
Por um instante absoluto, toda a realidade futura esteve comprimida entre as mãos de Arkríeus.
Então Arkríeus abriu as mãos.
E aquilo que estava condensado expandiu-se.
Assim surgiu o primeiro domínio da realidade:
THE APEIRON
O Apeiron é o primeiro campo de manifestação da existência.
Não possui fronteiras, não possui bordas, não possui forma fixa. Ele é o domínio ilimitado onde todas as possibilidades da realidade podem existir simultaneamente.
Dentro do Apeiron não existem dimensões definidas, nem leis fixas. Tudo é potencial.
Cada universo que um dia surgirá está contido ali como possibilidade latente.
Cada realidade possível está ali.
Cada linha de tempo possível está ali.
O Apeiron não é um lugar.
Ele é um oceano absoluto de realidade ainda não definida.
Nada nele possui limites.
Nada nele possui fim.
E nada nele pode ser completamente mensurado.
Dentro dessa vastidão infinita surge uma diferenciação.
Uma delimitação dentro do ilimitado.
Assim surge a segunda camada da realidade.
THE BOUNDLESS
The Boundless é a primeira organização do Apeiron.
Enquanto o Apeiron é totalmente ilimitado, The Boundless representa o campo onde o infinito começa a adquirir direções.
Aqui surgem fluxos de realidade.
Correntes imensas de potencial cósmico atravessam esse domínio como rios infinitos de existência.
Cada corrente carrega possibilidades diferentes.
Algumas contêm universos completos.
Outras contêm realidades que jamais se tornarão concretas.
The Boundless é um domínio de transição entre o infinito puro e as estruturas que começarão a surgir.
Ele é tão vasto que nenhuma entidade que existirá no futuro poderia sequer atravessar uma fração dele.
Mesmo civilizações cósmicas que dominem universos inteiros seriam incapazes de compreender sua extensão.
A partir dessas correntes infinitas surge uma nova estrutura.
THE BOX
The Box é o primeiro domínio onde a realidade começa a adquirir contorno.
Ele funciona como uma matriz.
Um sistema colossal onde realidades começam a ser organizadas em estruturas coerentes.
Dentro da Box, potenciais deixam de ser apenas possibilidades caóticas e começam a assumir formas definidas.
Aqui surgem as primeiras arquiteturas cosmológicas.
Universos possíveis são classificados.
Leis físicas possíveis são separadas.
Modelos inteiros de realidade começam a ser estruturados.
A Box não é pequena.
Ela contém quantidades incalculáveis de universos possíveis.
Mas ainda assim, ela está contida dentro de algo maior.
THE BARREL
The Barrel é o domínio onde conjuntos inteiros de universos passam a existir como sistemas completos.
Se a Box organiza universos possíveis, o Barrel contém coleções imensas deles.
Cada Barrel pode conter trilhões de universos completos.
Esses universos não precisam compartilhar as mesmas leis.
Alguns podem possuir tempo linear.
Outros podem possuir múltiplos tempos.
Outros podem sequer possuir tempo.
O Barrel funciona como um reservatório gigantesco de realidades completas.
Mas ainda existe algo além.
THE OUTER
The Outer é a região onde múltiplos sistemas Barrel coexistem.
Aqui não existem apenas universos.
Existem conjuntos inteiros de realidades.
Cada um contendo seus próprios sistemas cosmológicos, suas próprias leis fundamentais, suas próprias dimensões.
O Outer é tão vasto que a noção de “cosmo” se torna irrelevante.
Ele contém quantidades inimagináveis de realidades completas.
Ainda assim, o Outer é apenas uma camada intermediária.
Porque acima dele surge algo ainda mais amplo.
EXTRAVERSO
O Extraverso é o domínio onde realidades deixam de ser apenas universos ou sistemas de universos.
Aqui existem estruturas cosmológicas que transcendem completamente as dimensões tradicionais.
Cada Extraverso pode conter infinitos sistemas Outer.
Cada Outer contém incontáveis Barrels.
Cada Barrel contém trilhões de universos.
O Extraverso é um oceano de realidades que ultrapassam qualquer estrutura dimensional.
Mas a criação de Arkríeus não terminou.
OMNIVERSO
O Omniverso é o conjunto absoluto de todos os Extraversos.
Ele contém todas as estruturas cosmológicas possíveis.
Todos os universos.
Todas as linhas de tempo.
Todas as realidades alternativas.
Nada que possa existir está fora do Omniverso.
Ainda assim, dentro dessa estrutura gigantesca existem divisões menores.
MULTIVERSO
O Multiverso é o domínio onde universos individuais surgem.
Cada universo possui suas próprias leis físicas.
Alguns contêm bilhões de galáxias.
Outros possuem apenas algumas estrelas.
Alguns vivem trilhões de anos.
Outros colapsam em poucos segundos.
Cada Multiverso representa uma coleção de universos que compartilham estruturas fundamentais semelhantes.
Foi dentro desses multiversos que surgiriam estrelas, galáxias, planetas e vida.
Mas todos esses domínios — Multiverso, Omniverso, Extraverso, Outer, Barrel, Box, Boundless e Apeiron — possuem algo em comum.
Todos eles existem apenas porque Arkríeus abriu suas mãos.
E mesmo após criar toda essa vastidão inconcebível de realidade, Arkríeus permaneceu acima de tudo.
Ele não está contido dentro dessas estruturas.
Ele não está limitado por elas.
Toda a criação existe dentro da vontade de Arkríeus.
E Arkríeus continua sendo aquilo que sempre foi.
O Arkhon.
O fundamento absoluto da realidade.