Eu tinha 32 anos quando entendi que o silêncio também pode ser uma forma de abandono.
Doze anos de casamento. Doze anos de rotinas que começaram com carinho e terminaram em gentilezas vazias. Beijos rápidos. Mãos que me tocavam como quem confere se a porta está trancada. Nada de errado… e, ainda assim, tudo faltando.
Eu também não tinha filhos.
Não por acaso.
Eu tinha escolhido a carreira antes de qualquer outra coisa. A publicidade me consumiu por anos — campanhas, prazos, reuniões, viagens, ideias que nunca dormiam. Eu me tornei boa no que fazia. Muito boa. Mas, em algum lugar do caminho, eu deixei de ser mulher para ser função.
Meu corpo sabia disso antes de mim.
Havia noites em que eu deitava e o lençol parecia frio demais, como se a minha pele estivesse pedindo algo que eu não recebia mais. Um calor lento crescia por dentro, um desejo sem nome, uma vontade de ser sentida — não apenas amada.
Quando o divórcio veio, não houve drama. Só espaço.
Espaço demais.
Passei a morar sozinha, beber meu próprio vinho, escutar minha própria respiração. E foi nesse silêncio novo que eu comecei a ouvir o que eu havia calado por anos.
Eu não queria outro marido.
Não queria promessas.
Eu queria intensidade.
Queria me perder por um instante.
Sentada no sofá, luz baixa, pernas cruzadas, eu finalmente admiti: não era tristeza o que queimava em mim.
Era fome.
Eu me levantei com uma decisão que ardia por dentro.
Fui para o banheiro e tomei um banho lento, completo, deixando a água escorrer pelo meu corpo como se estivesse lavando doze anos de espera. Me toquei apenas o suficiente para sentir a própria pele, para lembrar que eu ainda estava ali — viva, sensível, faminta.
Depois, passei um perfume que eu sabia que poderia desarmar até o homem mais celibatário. Aquele tipo de aroma que não pede atenção… exige.
Vesti minha lingerie mais provocante. Não era para ninguém ver — era para eu sentir. Para me olhar no espelho e reconhecer aquela mulher que eu tinha deixado adormecida por tanto tempo.
Escolhi, com cuidado quase ritual, um vestido capaz de fazer homens e mulheres me desejarem. Um tecido que abraçava minhas curvas com intenção. Que não escondia. Que prometia.
Diante do espelho, respirei fundo, os olhos mais quentes do que eu lembrava de ter.
— Esta noite vai ser minha.
E, pela primeira vez em muitos anos, eu realmente acreditei nisso.
Parei na primeira balada que encontrei.
Luzes quentes, música pulsando como um coração acelerado, corpos se movendo em sintonia com algo que não precisava de explicação. Homens e mulheres preenchiam o lugar, risos misturados ao som dos copos, olhares que se cruzavam como promessas silenciosas.
Entrei como quem já não pede licença.
Eu sentia os olhos sobre mim quase de imediato. Não porque eu estivesse procurando atenção — mas porque, naquela noite, eu carregava algo diferente. Uma espécie de eletricidade sob a pele. Um convite que não era dito, apenas sentido.
E eu não me importava com o que viesse a acontecer.
Caminhei até o bar, pedi uma bebida forte e me encostei ali, observando o mundo girar ao meu redor. Cada batida da música parecia acompanhar a pulsação dentro de mim. Eu estava ali para sentir. Para existir sem freios, sem passado, sem explicações.
Doze anos de contenção tinham ficado para trás naquela porta.
Agora, eu era só eu — e uma noite inteira pela frente.
Eu me aproximei do bar e pedi uma Vodka caprichada. Daquelas que queimam só o suficiente para lembrar que se está viva.
Enquanto o barman preparava, meus olhos o encontraram.
Moreno. Alto. Postura firme. Um tipo de presença que não implora por atenção — simplesmente ocupa espaço. Algo nele me despertou por dentro como um estalo silencioso. Um calor breve, preciso. Mas meu rosto não entregou nada.
Postura é tudo para uma mulher.
Fingi desinteresse, girando o copo entre os dedos, até sentir — mais do que ver — quando ele me notou. Não demorou. Homens assim sempre percebem quando alguém os observa, mesmo em silêncio.
Ele se aproximou com calma, confiante.
— Posso te acompanhar?
Eu sorri de lado, aquele tipo de sorriso que não concede nada de graça.
— Depende… você costuma pedir permissão para sentar, ou isso é só charme de primeira rodada?
Os olhos dele brilharam por um instante.
Por dentro, eu já o queria.
Por fora, eu era só controle e ironia bem vestida.
— Maitê — eu disse, erguendo o copo. — E você?
A noite, eu sabia, acabava de começar.
— Lucas — ele respondeu, a voz baixa, firme, do tipo que não precisa se impor. — Prazer.
O nome combinava com ele. Curto, direto, sem rodeios.
— Lucas… — repeti devagar, como se estivesse provando o som. — Então você decidiu mesmo vir até aqui.
Ele sorriu de canto, apoiando o cotovelo no balcão ao meu lado.
— Quando uma mulher me olha daquele jeito, fingindo que não está olhando, eu costumo ouvir.
Inclinei levemente a cabeça, bebendo um gole da Vodka.
— Cuidado — eu disse, em tom irônico. — Você pode estar confundindo curiosidade com convite.
— E você pode estar usando ironia como desculpa.
Meu sorriso cresceu, discreto. Elegante. Perigoso.
Ele tinha razão.
E eu sabia disso.
Mas postura… postura é tudo.
— Então, Lucas — falei, encarando-o agora sem fugir —, vai ficar me analisando a noite inteira ou pretende me fazer esquecer que estou entediada?
A música pulsava entre nós.
E o jogo tinha começado.
Direta, eu joguei os cabelos para trás e me virei sem olhar se ele vinha.
Caminhei até a escada que levava para a parte mais alta da casa, os degraus iluminados por uma luz baixa, quase íntima. Cada passo meu era calculado — não para provocá-lo, mas porque eu sabia exatamente o efeito que causava.
Ainda assim, senti quando ele me seguiu.
Não precisei olhar. Havia algo quase magnético no jeito como a presença dele se aproximava, firme, silenciosa, determinada. A música ficava mais distante a cada degrau, substituída por um murmúrio abafado e uma atmosfera mais densa.
No topo da escada, parei por um instante.
Virei o rosto apenas o suficiente para que ele visse meu sorriso.
— Achei que você fosse desistir.
Lucas estava perto demais agora. Não me tocava. Não precisava.
— Não esta noite — ele respondeu.
Eu segurei firme a nuca de Lucas e o puxei para mim.
O beijo veio rápido, decidido, como se eu estivesse cansada de ensaiar aquela cena na minha cabeça. Minha boca encontrou a dele com uma urgência que eu não fazia questão de esconder — mas o ritmo, a profundidade, o tempo… tudo ainda era meu.
Eu controlava.
Sentia a respiração dele mudar sob meus dedos, o corpo responder antes mesmo da mente. Havia algo quase delicioso em saber que aquele homem, tão confiante minutos antes, agora seguia o compasso que eu ditava.
Quando me afastei por um instante, nossos rostos ainda estavam próximos demais.
— Eu disse que esta noite seria minha — murmurei, a voz baixa, segura. — Você só está… participando dela.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu não estava pedindo nada a ninguém.
Eu estava escolhendo.
O próprio Lucas não sabia, mas, na verdade, o que eu queria ali não era só provocar.
Por trás da postura, do sorriso calculado e do controle que eu fingia dominar tudo, havia outra coisa queimando em mim. Eu não tinha vindo até aquela balada para vencer um jogo. Eu tinha vindo para perdê-lo.
Eu queria, por um instante, deixar de ser a mulher impecável, a publicitária estratégica, a esposa que sempre soube se conter.
Eu queria sentir algo que escapasse da minha expectativa.
Algo que me tirasse do eixo.
Algo que não obedecesse à minha vontade.
Segurando a nuca dele, eu ainda parecia no comando…
mas por dentro, eu implorava por algo que me arrancasse desse controle.
Talvez fosse isso que mais me excitava naquela noite:
a ideia de finalmente não saber o que viria depois.
Coloquei a mão dentro do meu vestido, puxei a parte de baixo da lingerie para fora e me virei para Lucas, abrindo o zíper de sua calça, puxando seu membro para fora. Fiz o que quis com ele ali, usando minha boca.
Puxei Lucas para uma sacada que havia perto da janela, fazendo com que Lucas me pegasse com força. Ele me invadiu e ali mesmo consumou parte do prazer que eu queria sentir.
Eu deixei a postura cair.
Foi quase um gesto de rendição quando deslizei a mão por baixo do tecido do vestido, sentindo a própria pele quente demais para a noite. Lucas percebeu na mesma hora — o ar entre nós mudou, ficou denso, elétrico.
Me virei para ele sem pressa, olhos nos olhos, como se estivesse entregando algo que eu sempre mantivera trancado.
O sorriso dele desapareceu.
Agora havia fome.
Eu me aproximei, lenta, perigosa, sentindo o efeito que causava. Não precisei dizer nada. Minhas mãos, meu corpo, meu olhar… tudo falava por mim. Lucas respondeu do único jeito que um homem pode quando uma mulher o escolhe daquele modo: inteiro, atento, tenso.
O mundo ao redor deixou de existir.
Eu o conduzi até perto da sacada, onde a luz da cidade entrava em lâminas douradas pela janela. O vidro refletia partes de mim que eu mesma quase não reconhecia — uma Maitê mais solta, mais ousada, mais viva.
Quando ele me envolveu, não foi delicado.
Foi necessário.
Eu queria sentir.
Queria me perder.
Queria que algo em mim finalmente se rompesse.
E ali, com a noite aberta diante de nós e o corpo dele colado ao meu, eu soube que estava conseguindo exatamente isso.
Não era só desejo.
Era libertação.
Eu não perdi a postura de uma vez.
Ela foi se desfazendo em camadas.
Primeiro foi o jeito como eu respirava — menos contido, mais fundo. Depois, o modo como meus ombros relaxaram, como se o peso de doze anos tivesse escorrido por eles. A mulher que entrou naquela balada com o vestido impecável ainda estava ali… mas já não comandava sozinha.
Algo em mim tinha sido despertado.
Eu sentia meu próprio corpo como se fosse novo, como se cada gesto, cada arrepio, cada olhar de Lucas estivesse reescrevendo quem eu era. Não era só desejo — era reconhecimento. De uma parte minha que tinha sido silenciada por muito tempo.
E quando me dei conta, eu já não me preocupava mais em parecer elegante, correta ou intocável.
Eu queria ser sentida.
Queria ser vista.
Queria ser real.
Aquela Maitê que calculava cada palavra, cada passo, cada reação… estava ficando para trás, como um vestido caro deixado numa cadeira.
No lugar dela surgia outra mulher.
Mais viva.
Mais quente.
Mais perigosa.
E, pela primeira vez desde que me lembrava, eu não estava tentando controlar o que acontecia comigo.
Eu estava permitindo.
A respiração de Lucas ao meu pé do ouvido soava como uma provocação intensa, que me fazia ficar de pernas trêmulas, seja com os movimentos dele dentro de mim, fosse por sentir o calor daquele corpo moreno passar para o meu (Céus! Era isso que eu queria sentir, Papai!).
O que mais me incendiava não era só Lucas.
Era o risco.
A sacada aberta, a cidade viva lá embaixo, o fato de que alguém podia passar, olhar, perceber algo fora do lugar… tudo isso fazia meu coração bater mais forte. Cada batida parecia dizer que eu estava indo longe demais — e, ainda assim, eu não queria parar.
Por anos eu vivi protegida por regras. Pela carreira, pelo casamento, pela imagem que eu mesma construí. Agora, ali, tão perto de ser vista, de ser julgada, de ser descoberta, eu sentia algo que nunca tinha sentido antes: liberdade.
O perigo me despia mais do que qualquer mão.
Eu não era mais a mulher que calculava.
Eu era a mulher que sentia.
E quanto mais aquela linha invisível entre o certo e o proibido ficava fina, mais eu me sentia viva. Meu corpo reagia à tensão, ao segredo, ao quase-flagrante como se fosse música.
Talvez fosse isso que eu sempre tivesse buscado:
não apenas prazer,
mas a vertigem de sair do lugar onde eu sempre me escondi.
E naquela noite, pela primeira vez, eu não estava fugindo do perigo.
Eu estava correndo em direção a ele.
Roupas parcialmente ao chão.
Tecidos que já não cumpriam sua função, largados como sinais de rendição. Meu vestido ainda me tocava, mas de um jeito diferente — menos como armadura, mais como lembrança do que eu tinha sido minutos antes.
O ar da noite encontrava minha pele e me fazia arrepiar. A cidade, logo ali, parecia respirar comigo.
Cada pedaço de tecido que escorregava era mais uma camada de controle que eu deixava cair.
Eu não estava apenas me despindo.
Eu estava me transformando.
E quanto mais exposta eu me sentia — ao vento, ao olhar de Lucas, ao risco invisível de ser vista — mais intensa aquela versão de mim se tornava.
A mulher que entrou naquela balada precisava de postura.
A que estava ali agora… precisava de verdade.
A cidade brilhava lá fora como se fosse cúmplice.
O vento da sacada deslizava pela minha pele enquanto eu me movia contra Lucas, sentindo cada reação dele como se fosse música. Nossos corpos se buscavam sem pressa agora, como quem descobre um ritmo próprio. As mãos dele exploravam, puxavam, seguravam; as minhas guiavam, provocavam, exigiam.
Eu já não fingia mais controle.
Eu estava entregue.
A cada movimento, algo dentro de mim se desfazia — não em pedaços, mas em camadas. A mulher que tinha passado doze anos sendo previsível, correta, moderada… estava ficando para trás, dissolvendo-se naquela noite quente.
Havia algo quase poético no jeito como nos encontrávamos: às vezes lentos, às vezes urgentes, sempre intensos. O vidro refletia sombras de nós dois — uma mulher que se permitia, um homem que a acompanhava sem tentar domá-la.
Eu fechei os olhos por um instante, sentindo tudo.
E quando voltei a abri-los, eu já não era mais a mesma.
Saímos dali pouco depois, como se carregássemos um segredo entre nós. O caminho até minha casa foi silencioso, mas carregado de expectativa. O tipo de silêncio que vibra, que promete.
Ao abrir a porta do meu apartamento, senti algo definitivo acontecer.
Aquele espaço — antes limpo, organizado, solitário — agora parecia pronto para me receber de um jeito diferente. As luzes suaves, o sofá, as paredes que já tinham ouvido tantos silêncios… tudo agora seria testemunha de uma nova versão de mim.
Deixei a bolsa cair sobre a mesa.
Me virei para ele.
— Bem-vindo à minha vida fora do controle — eu disse, com um sorriso que já não pedia aprovação.
Lucas me olhou como se entendesse exatamente o que isso significava.
Ali, naquela sala, eu não era esposa, não era publicitária, não era imagem.
Eu era apenas Maitê.
Uma mulher que tinha ousado desejar.
Que tinha atravessado o perigo.
Que tinha escolhido sentir.
E, naquela noite, mais do que prazer, eu encontrei algo ainda mais raro:
Eu encontrei a mim mesma.
Autor Ismael Faria
DIREITOS AUTORAIS RESERVADOS
LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998.