O Reino da Fantasia (Edição de Bolso e Papel Couché)
Há algo profundamente reconfortante no faz de conta. Enquanto o mundo exterior insiste em ser chato — com a sua inflação, os seus conflitos geopolíticos e a pequena irrelevância histórica de uma República que insiste em durar 116 anos —, a revista Flash transporta-nos para um universo paralelo onde o tempo parou, algures entre um baile de máscaras do século XIX e uma opereta de terceira categoria.
A última entrega desta crónica social de pacotilha traz-nos um vislumbre da Sociedade de Geografia, esse refúgio de naftalina e convicções monárquicas, onde se organizou uma “Sessão Evocativa” pelos 200 anos da morte de D. João VI. E a notícia não é apenas a ausência de D. Duarte, o eterno pretendente ao trono das sombras; o verdadeiro choque cultural é o elenco.
Numa era em que a monarquia é, no máximo, um hobbie caro e um tema recorrente para colecionadores de selos, lemos com naturalidade estupefacta sobre “Príncipes da Beira”, “Duques do Porto” e “Príncipes Imperiais do Brasil”. É fascinante. É como ler uma lista de personagens de um romance de cavalaria que alguém esqueceu de fechar no sótão.
Tratar alguém por “Dom” em 2026 não é apenas um anacronismo; é uma performance artística de alto nível. É como se, de repente, todos tivéssemos decidido que a realidade é um conceito negociável e que, se pusermos uma faixa a tiracolo e um título aristocrático numa etiqueta de cartão, a República desaparece por artes mágicas. É a versão low-cost da Hola espanhola: falta-lhe o glamour dos Borbón, mas compensa no kitsch absoluto da autoconvicção.
O que torna tudo isto deliciosamente satírico não é a existência destes títulos — afinal, cada um brinca com o que quer —, mas a seriedade com que a Flash nos serve este banquete de faz de conta. O “Príncipe Imperial do Brasil” a ser evocado em Lisboa é a cereja no topo de um bolo de plástico. É um mundo onde as pessoas pagam impostos, apanham transportes públicos e compram o pão, mas, à noite, sentam-se à mesa da Sociedade de Geografia para fingir que o relógio não avançou um milímetro desde 1826.
Vivemos, pois, num território bífido: de um lado, a República que teima em gerir um país real, com todos os seus defeitos; do outro, esta corte de opereta que se autoproclama detentora de títulos que o Estado nem reconhece, nem lembra. É um espetáculo gratuito de realismo mágico à portuguesa.
No fim, a ausência de D. Duarte acaba por ser o elemento mais sensato de toda a cerimónia. Afinal, para que comparecer a uma evocação real quando se pode continuar a governar um reino imaginário, muito mais confortável, onde os títulos nunca expiram e a República é apenas um rumor desagradável que se ouve lá fora, através das janelas fechadas da Geografia?