#Conto

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wtghauss
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Personagem de um conto: Delegado U.S. Marshal Robert Jackson Lee. O conto “Somente do Inferno vem a Justiça” já desenvolvendo outros personagens ao longo de suas quatro páginas. Este levará um tempo, pois outros projetos estão prioritários. Embora o gênero western possa parecer batido para alguns, uma trama sobrenatural ajuda. Promete!

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mrerio
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Um encontro inesperado - Parte II

Continuação do conto aqui!
A Valéria (@contos-de-valeria) gostou e aqui vai a segunda parte!

Minha primeira noite de apresentação foi ótima, o clima da galera da primeira casa me animou bastante e principalmente uma loira super gata tinha me fisgado logo depois da apresentação.

Valéria e eu passávamos horas conversando, por ligação, por mensagem. Pareciamos um casal no início de namoro.

Estávamos muito curiosos sobre o outro sempre que ela tinha uma folga no trabalho ela rendia papo (ou mandava mensagem ou respondia alguma minha que estava lá).

- Me tira uma dúvida? - Ela perguntou - Você gostou tanto assimm de mim naquele vestido que não me deixou tirar?
- Ah, nossa! Então! Mulheres de vestido me deixam maluco! É facínio…
- Ah, Tarado dos vestidos!
- É bem por aí… E aquele te deixou uma maravilha!

Logo em seguida recebo uma mensagem dela usando uma blusa branca e uma saia cinza de um local que parecia ser o banheiro de onde ela trabalhava, cabelos presos e um óculos, estava bem no estilo professorinha, que mulher…

Pra te deixar doidinho!

Eu contava os minutos para poder encontrar com ela denovo e essa ansiedade me fez perguntar se ela queria ir ver a gente tocar mais logo a noite e ela disse que não poderia, mas que eu era esperado lá depos que terminasse a apresentação para outro show que eu seria o espectador. Aí minha concentração foi para o espaço.

A apresentação foi ótima, dessa vez em outro lugar, mais cheio ainda, devia ser pelo fato de ser sexta e no final cada um seguiu seu rumo e eu estava livre para curtir a noite.

- Ta acorada?
- Oi querido! estou sim, já está vindo?
- Queria saber se posso!
- Vem, eu estou te esperando!

Comprei umas garrafas de vinho e uma de cachaça que estava na metade lá onde haviamos tocado, descolei um lugar para comprar umas coisas para comer com ela e parti lembrando a noite anterior.

Quando ela me recebeu eu não tenho palavras para descrever, estava descalça, cabelo solto, um vestido de cetim azul com alças finas e uma abertura lateral até a altura da cintura que deixava ela exibir aquela perna deliciosa, um perfume briante, um batom chamativo, eu levei um tempo para assimilar o que estava logo ali na minha frente.

- Chegou na hora, gato!
- E que hora boa! - Disse com um sorriso no rosto.

Eu entrego para ela a rosa que eu havia comprado ela cheira e me convida para entrar, quando vira de costas vejo que o vestido era aberto até a cintura também, só um laço prendia um lado ao outro. QUE MULHUER! QUE MULHER!

Eu preparo umas coisas para tomarmos e comer enquanto ela me olhava como uma leoa na savana olha sua presa prestes a ser abatida, fomos pra sala e fiz questão que ela sentasse no meu colo, ela estava linda, conversavamos de pé de ouvido, minhas mãos alternavam entre acariciar ela e colocar pedaços de frutas na boca dela, beijos e suspiros rolavam o tempo todo, o vinho começou a tomar conta dela, que agora sentava de frente pra mim.

- Gosou desse vestido?
- Ele enfeita bem a obra de arte!
- Ah, agora sou uma obra de arte!
- Digna de Louvre!
- Gente…

Ela bebe um pouco mais do vinho e eu começo a beijar seu pescoço vou descendo até chegar na altura dos seios que estavão muito cheirosos, ela segura minha cabeça entre eles e começa a dançar com quadril no meu colo.

Seus seios estavam mais doces, um perfume incrível e tinham um brilho também, quanto perguntei ela me disse que era um produto que tinha guardado, que eu podia aproveitar bastante pois era comestível.

Minhas mãos tateavam a pele dela por baixo do vestido, sinto a renda da calcinha por baixo dele, aperto sua bunda forte, ela deslisa mais intenso ainda pra frente e pra trás no meu colo, minha camisa a essa hora já tinha sumido.

Eu paro por um momento e olho nos olhos dela, desato o laço das costas dela e tiro um lado apenas da alça de seu vestido. Minha boca toma conta daquele seio nú e o chupa como uma fruta recém colhida, minha lingua percorre seu mamilo e o acaricia fazendo circulos, seus dedos se enroscam nos meus cabelos com força e me apertam contra seu peito.

Minha mão puxa sua calcinha para o lado para a outra começar a te tocar entre as pernas, meus dedos sentem sua boceta molhada, lisa, quente e a excita lentamente te fazendo gemer de forma deliciosa no meu ouvido, suas mãos abrem a minha calça, suas mãos frias por conta da bebida tocava meu pau e o movimentava para cima e para baixo, suas mãos se esquentavam enquanto me toca.

Você se levanta do meu colo ajoelha na minha frente, termina de remover a minha calça, minha cueca e se inclina na minha direção, sua boca quente me toca, sua lingua passeia pela cabeça e me arranca suspiros fortes, seus labios envolvem meu membro e sua cabeça se movimenta pra cima e para baixo. Seu boquete é uma delicia, não era muito molhado, o suficiente para me deixar muito excitado, você gemia a cada movimento e me olhava fundo nos olhos também, seus seios tocavam minhas coxas, você usa uma das mãos para se tocar enquanto me chupa, de vez em quando você tirava os dedos molhados da boceta e colocava na sua boca, tirava da boceta e me fazia chupá-los, sentindo o seu gostinho.

Me faz deitar no sofá mesmo e em seguida posiciona a xota sna minha boca e assim ficamos num 69 gostoso. Sinto o cheiro da sua boceta e tinha um arima incrível além do cheirinho gostoso de boceta, seu gozo tinha humidecido ela toda e já começava a escorrer e eu não deixava passar uma gota. Minha boca passeava pela suas coxas também, macias, quentes e também passeava pelo seu grelo, clitóris, por toda a sua boceta. Você misturava os gemidos com as chupadas e movimentava o quadril no meu rosto.

Em um momento você se levanta e posiciona meu pau bem na direção da entrada da sua vagina e senta lentamente, meu pau escorrega para dentro de você arrancando gemidos altos, alguns tremores, suas mãos se apoiavam nos quadris enquanto rebolava emciima de mim. Seus movimentos eram intensos, fortes, cadenciadas, a boceta piscava com meu pau dentro. Eu me sento no sofá e te abraço por trás, seguro seus seios, mordo suas costas, uma das minhas mãos desliza pela sua virilha em direção à sua boceta para te tocar, sua mão se junta à minha e te tocamos arrancamos mais gemidos da sua boca enquanto você quicava em cima de mim, sua bunda linda raspava em mim e nossos movimentos se intensificam começamos a tremer e a gemer alto, vocẽ goza gostoso no meu colo e eu em você novamente, você se deita em cima de mime continua se movimentando ainda comigo lá dentro e me beija.

- Você é um mulherão sabia?
- Você não cansa de me elogiar né?
- É surreal ter você assim!
- Vai ter de outros jeitos…

Se levanta e me puxa para o quarto…

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degustação | senzala

Ricardo, filho de Dona Regininha — cozinheira de mão-cheia na casa dos Gonçalves — era um menino que chamava a atenção pela timidez e pela inteligência. De pai desconhecido. Para a patroa da mãe, a toda poderosa Dona Elizabeth… era o filho preto que veio preencher a falta do gato morto.

Deixava-o ler os livros da biblioteca e indicava títulos e autores. Percebia sua predileção por Fernando…

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Dolores


Numa fria e nublada tarde de outono, Dolores sentou-se sobre um rochedo e ficou a contemplar o mar.

O céu parecia feito de um único bloco de chumbo, baixo e pesado, como se o mundo estivesse coberto por uma tampa opaca. O vento vinha do largo, carregando o cheiro áspero do sal e das algas, e fazia ondular lentamente a barra escura de seu vestido. Dolores não se movia. Tinha as mãos pousadas sobre o colo, os dedos entrelaçados com uma quietude quase litúrgica, como se guardasse dentro deles um segredo antigo

O mar estava inquieto, mas não violento. Ondas longas aproximavam-se com uma cadência melancólica, quebrando-se contra as pedras com um suspiro prolongado, como um animal cansado que respira no escuro. Dolores observava esse movimento repetido e infinito. Sempre a mesma aproximação, sempre o mesmo retorno. Havia algo de profundamente humano naquele ritmo, uma insistência obstinada, mesmo quando nada parecia mudar.

Ela pensava, mas não com palavras claras. Pensava com imagens, com memórias difusas que se erguiam como ilhas breves no horizonte da consciência. Um jardim de infância distante. Um rosto masculino inclinado sobre um livro. A luz de uma janela num verão há muito passado. Tudo surgia e desaparecia como as próprias ondas.

Durante muito tempo, Dolores acreditou que a vida avançava como um caminho reto, uma linha firme, conduzindo de um ponto a outro. Agora compreendia que ela era mais semelhante ao mar diante dela, vasta como ele, igualmente circular e cheia de regressos inesperados. Aquilo que julgamos ter deixado para trás muitas vezes regressa sob outra forma, com outro nome, mas com a mesma substância secreta.

O vento aumentou. Uma mecha de cabelo desprendeu-se de seu coque e atravessou-lhe o rosto. Dolores não a afastou.

Havia anos que não vinha àquele lugar. No entanto, ao olhar para o horizonte, teve a impressão estranha de que o mar a reconhecia. Como se aquela paisagem silenciosa fosse testemunha de todas as versões dela mesma que já existiram.

A jovem que um dia sonhara com amores absolutos.

A mulher que aprendera a desconfiar das promessas.

E aquela figura silenciosa que agora observava as águas escuras com uma serenidade hierática.

O mar continuava a mover-se.

Por um instante, Dolores teve a sensação tênue, quase imperceptível, de que algo dentro dela também começava a mover-se novamente, como uma maré distante que retorna após um longo inverno

Ela permaneceu ali.

E o entardecer, lento e plúmbeo, desceu sobre o mundo.

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mrerio
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Debaixo dos caracóis daqueles cabelos

Estava próximo de um feriado prolongado, eu afim de descansar do trabalho, curtir um tempo, quebrar a rotina um pouco, pensei “por que não dar um passeio, uma viajada?”

Essa pergunta me atormenava o dia inteiro, na tentativa de esquecer essa idéia fui dar uma mexida tumblr e um post me chamou a atenção, era uma amiga que conheci nele falando sobre tristeza e desânimo, resolvi mandar uma mensagem.

- Ei mocinha… Está tudo bem?
- Ah, mais ou menos… Estou precisando de um descanço!
- Feriadão está chegando… Dá uma passeada!
- Eu até vou folgar, mas sem ter para onde ir!
- Como assim? Tem lugares super bacandas aí pra ir…
- Pois é, é complicado!

Papo vai, fui contando piadas, mandando figurinhas para fazer ela sorrir e animar um pouco até que em um momento um anúncio de viagens apareceu, pensei “legal, será que ela toparia?”

- Aqui, topa um passeio se eu for pra aí?
- Ah, sei lá… Aqui é longe para você vir só por minha causa.
- Eu já queria ir, apareceu uma oportunidade boa aqui de viagem, topa?
- Pra onde?
- Segredo! Mas vai gostar.
- Te respondo mais tarde, pode ser?
- Claro!

Fiquei super animado, se realmente não quisesse teria dito não na hora, mas pediu para pensar e vinte minutos depois eu recebo uma mensagem de voz dela: “Olha eu topo, me diz quantos dias e o que tenho de levar na mala!”

Mandei para ela que chegaria na quinta cedinho (como é bom trabalhar por conta própria), e de tardinha iriamos pro nosso passeio e voltaria com ela no domingo dei detalhes do que levar na mala e entrei em contato com a empresa para confirmar o passeio, pq eu já tinha conversado com eles e deixado de sobre aviso.

Ela animou com esse passeio, ia ser uma boa folga para descançar, conversávamos o tempo todo e nós dois estavamos super animados.

Conforme o combinado, cheguei de manhã cedinho conforme o combinado, fiz uma hora no aeroporto para dar tempo da cidade acordar, aí meu telefone toca “- bom dia! Já chegou?” eu respondi que sim e convidei ela para tomar um café em algum lugar que ela gostasse, assim a gente podia conversar mais, ela topou.

Conversamos e rimos como velhos amigos, nem parecia que era a primeira vez que nos encontrávamos de verdade, e assim que chegou a hora partimos para nosso passeio.

Expliquei tudo da viagem para ela, que iriamos ter uma especie de apartamentozinho, que ela ficaria com a suite para ter mais liberdade, teriamos café da manhã, passeios e tal, queria que a viagem fosse segura e bastante proveitosa para ela.

Chegamos de volta no aeroporto e tive de revelar o destino para ela.

- Noronha?! Você está maluco? - Perguntou sussurrando.
- Eu disse a você que eu estava doido para conhecer um lugar aqui…

Chegamos na ilha e fomos nos alojar na pousada, que era muito linda por sinal, ganhei um upgrade no chalé para um com duas suites e até um pouco maior que o outro, um dos melhores que tinham.

Passamos a tarde na pousada curtindo e de noite ia rolar um showzinho no bar deles, MPB e eu queria muito curtir.

Quando ela sai do quarto, pronta para sair, estava um arraso, jaquetinha, sainha e blusinha azul, aqueles cabelos lindos, encaracolados, os olhos de gato enfeitados, estava uma super gata.

- Não baba muito não amigo, vai manchar a blusa!
- Heim?! Ah….

Rimos muito

- Tá linda heim!
- Gostou?

Ela dá uma voltinha, meu queixo vai ainda mais no chão.

- Demais da conta! Sem palavras!
- Vamos?
- Vamos! - Extendo o braço para ela segurar e irmos.
- Nossa, um cavalheiro…

Sentamos no bar, pedimos bebidas e algo para comer e logo logo estavamos cantando juntos com o artista da noite.

- E aí? Gostou da surpresa?
- Moço, eu estou adorando, estou até sem graça..
- Uai, sem graça?
- É, aqui é lugar pra vir com namorada…
- Ou com uma amiga que precisa muito de uma folga, uma animada!
- É, tem razão nesse ponto, tá fazendo efeito.

A noite começa a esfriar, o vento soprava frio e ela começou a sentir mesmo com a jaquetinha, me abraça colocando os braços por dentro do meu paletó e eu coloco o meu em volta dela, uma musica mais lenta começa a embalar a gente, começamos a nos levar pelo ritimo.

- Você também tá um gato! - Ela diz deitada no meu ombro.
- Obrigado! Com uma amiga gata assim não posso sair de qualquer jeito!
- Perfume também é bom, diferente!
- Gostou? Fabricação própria!
- Nossa, ficou ótimo!

Ela sente que meu coração acelera um pouco e minha respiração fica mais forte, começo a fazer cafuné nos caixinhos dela que olha pra mim e sorri.

- O que foi, amigo, está tudo bem?
- Está sim, por que?
- Nada!

Ela mal termina de responder e a gente se beija, os labios dela eram suaves, um pouco frio por causa do clima, com gostinho do vinho que ela estava tomando, a mão dela me aperta por baixo do paletó, uma perna dela passa por cima da minha, minha mão vai no joelho dela e alisa até chegar na coxa.

- Nossa, isso foi tão… bom… - eu disse.
- Foi mesmo…
- Olha não pense que…

Ela me beija outra vez.

- Esse seu perfume me deixou doida! Desde o quarto!
- Vou usar ele todos os dias!
- Pois use, que é muito bom…

Acabando o show fomos dar uma volta pela pousada, beijos quentes, poucas conversas. Eu sentia o corpo dela no meu, explorava suas curvas, seu calor, seu perfume, beijava seu pescoço e a abraçava forte.

- Ta esfriando muito, quer voltar pro quarto? - Pergunto para ela que já estava usando o meu paletó.
- Claro… Ta muito frio… lá a gente fica mais quentinho.

No quarto a gente entra e fica se pegando na porta, beijos intensos, pego ela no colo contra a parede, as pernas dela na minha cintura, minha mão por baixo da blusa dela arranhando suas costas. Ela desce do meu colo e me puxa pela mão até o quarto dela, apoia uma mão na cama e com a outra desabotoa o vestido e abre um pouquinho o ziper, olhando pra trás como quem pede “continua…”.

Abro devagar o ziper dela e a beijo novamente, dessa vez minha mão passeia pela sua barriga, linda, lisa, ela abaixa a saia e levanta os braços para que eu tire a blusa que vestia.

Que corpo lindo ela tem, coxas roliças, um bumbum grande, seios volumosos, redondos, uma pele morena, curvas suaves, um mulherão, mesmo sendo um pouco baixinha, dava gosto de olhar para aquele monumento, vestida apenas com uma calcinha vermelha.

ela vira de frente, tira a minha blusa, minha calça e minha cueca, expondo meu pau já duro, apontando em sua direção. Ela ajoelha na cama de frente pra mim e me puxa, me beija a boca, pescoço, eu aperto seu corpo contra o meu.

Ela se deita e sua mão passeia por todo o copom brinca com os seios, tira a calcinha e me convida para se juntar a na cama.

Eu deito do lado dela e fico ali beijando ela e acariciando sua pele.

- Você é linda, sabia!
- Você acha?
- Tenho certeza!

Minha boca segue beijando seu pescoço e desce para seus seios, minha mão que acariciava a sua barriga desce para o meio de suas pernas, sente que já estava molhada, querendo ser tocada, acariciada. Sinto seus biquinhos duros com minha lingua e sua xota lisa e molhada com meus dedos, ela geme no meu ouvido me deixando com mais tesão ainda, meus dedos a penetram, arrancando mais gemidos ainda, que vão aumentando. A voz dela era uma delicia no meu ouvido, como era gostoso ouvir aquela boca gemer assim tão de pertinho. A mão dela se junta à minha e nosso dedos se inundam com seu mel rapidinho, ela me puxa pra cima dela.

- Meddusa, quero algo antes.

Ela simplesmente põe a mão na minha boca, me fazendo provar do seu gosto e em seguida empurra minha cabeça para baixo.

Minha boca alcança a sua boceta molhada e cheirosa, que perfume gostoso ela tinha passado lá, ela estava quente, minha lingua buscava seu grelo, seu clitoris, os tocava, acariciava, minha boca chupava com muito gosto aquela boceta lisa e gostosa, ela geme alto e prende minha cabeça com as pernas, mão na boca para tentar conter o gemido alto, mas foi inútil, ela tremia e gemia ao mesmo tempo, sua boceta escorria, minha boca degustava cada centimetro dela e cada gota.

Volto pra cima dela, trocamos mais beijos e eu posiciono para penentrar.

- Vai devagar!

Eu vou lentamente colocando nela e olhando seu rosto, ela revira, morde os lábios, geme gostoso. Sinto meu pau percorrer cada centimetro de sua vagina e começa a ir e voltar, aos poucos vou acelerando. ela me beixa e me aperta forte conta o corpo dela. Sinto suas mãos em minhas costas, isso me deixa maluco, suas pernas roçarem as minhas, seus seios contra os meus, sua voz em meu ouvido.

- Agora eu vou ficar por cima!

Ela me empurra e vem pra cima e olha pra mim, se toca pra mim por um tempinho e lentamente vai sentando em mim, arfando e gemendo de tanto tesão. Sentir aquele movimento de quadril em cima de mim era maravilhoso, aquele cachinhos balançando no ar, suas mãos se apoiando no meu peito e o ritimo de vai e vem acelerando eram uma sensação maravilhosa. Eu já não aguentava mais essa gata em cima de mim, sinto que estava perto de gozar e digo pra ela, que começa a se tocar pra mim, ela geme alto também e cai em cima de mim tirando meu pau de dentro dela bem na hora quem meu gozo explode de mim.

Ela ainda fica um tempinho passando a boceta no meu pau, se excitando em mim.

- Isso foi muito bom Mr. eu precisava disso!
- Que bom que gostou, não esperava que anoite acabasse assim.
- E como achou que seria!
- Achei que cada um ia para o quarto e dormiria…
- Você não volta para aquele quarto tão cedo… só para pegar roupa.

A gente levanta e tomamos um banho juntos, abrimos um vinho para tormarmos na cama conversando.

A gente se deita sem roupas, apenas um cobertor e eu por trás fazendo carinhos e cafuné conversamos até ela dormir comigo agarradinho nela.

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escritordegaveta
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O Caminho do Norte


Numa manhã de inverno tardio, quando a cidade ainda respirava a monotonia plácida e dormente dos dias repetidos, Artur decidiu desaparecer.

Não foi um gesto impulsivo, nem um ato vazio de revolta juvenil. Durante anos cultivara, em silêncio, a suspeita de que a vida ordinária, com seus horários, escritórios, conversas banais, pequenas ambições administrativas, não passava de uma vasta maquinaria destinada a impedir um homem de confrontar a própria alma. Quanto mais observava seus contemporâneos, mais lhe parecia que todos estavam ocupados demais para perceber a inanidade de tudo que os cercava.

Artur não era infeliz. Eis o ponto decisivo.

Tinha uma profissão respeitável, um apartamento discreto, livros suficientes para ler por uma vida inteira. Ainda assim, uma inquietação antiga, quase metafísica, o acompanhava como uma sombra fiel. Perguntava-se se a civilização moderna não teria se tornado, paradoxalmente, uma forma refinada de exílio.

Certa noite, ao fechar um volume de Sêneca, compreendeu algo com súbita clareza: o mundo moderno oferecia infinitos meios de viver, mas quase nenhum de viver verdadeiramente.

Na manhã seguinte, vendeu o que possuía.

Não anunciou a ninguém seus planos. Evitava dramatizações. Os gestos verdadeiramente decisivos raramente se explicam. Reuniu apenas o indispensável: uma mochila austera, alguns livros, um caderno de anotações e um mapa antigo do extremo norte do continente.

Partiu.

Durante semanas atravessou estradas secundárias, caminhando ou aceitando caronas silenciosas. Observava paisagens como quem reencontra algo esquecido: rios ainda livres, florestas profundas, montanhas cuja presença impunha uma espécie de humildade arcaica.

A cada quilômetro, sentia a civilização dissolver-se.

Não havia ali heroísmo. Apenas um progressivo despojamento. As palavras tornavam-se raras; os pensamentos, mais nítidos.

Por fim alcançou as regiões onde o mundo humano se tornava esparso. Pequenas aldeias de madeira, postos de combustível solitários, homens de rosto endurecido pelo clima e pelo trabalho.

Ali ninguém perguntava demasiadamente.

Um velho caçador ofereceu-lhe abrigo por uma noite. À mesa, entre goles lentos de café escuro, perguntou-lhe:

— O que um homem como você procura tão longe?

Artur refletiu antes de responder.

— Talvez o que restou de mim depois que tudo o mais desapareceu.

O velho assentiu, como se aquela resposta fosse perfeitamente compreensível.

Dias depois, Artur entrou sozinho na vastidão.

A floresta boreal estendia-se como um oceano imóvel. Rios serpenteavam entre planícies silenciosas. O vento carregava uma pureza brutal, indiferente às pretensões humanas.

Ali começou sua verdadeira vida.

Os primeiros dias foram difíceis. O corpo, domesticado por anos de conforto urbano, resistia. As mãos doíam, o frio penetrava até os ossos, e a solidão absoluta revelava pensamentos que antes permaneciam ocultos.

Contudo, pouco a pouco, algo se transformou dentro de si.

A percepção do tempo alterou-se. Os dias deixaram de ser fragmentos contados por relógios. Tornaram-se ciclos de luz, fome, esforço e repouso. Cada gesto, como acender um fogo, encontrar água, preparar alimento, adquiria, para ele, uma gravidade quase ritualística.

Artur escrevia pouco em seu caderno.

Quando o fazia, eram observações simples:

“O silêncio não é só ausência de som. É, acima de tudo, ausência de mentiras”.

Ou ainda:

“Quanto mais o mundo se reduz ao essencial, mais o homem se torna inteiro”.

Certa tarde, ao observar o pôr do sol refletido num lago imóvel, compreendeu algo que durante anos lhe escapara. A civilização moderna prometera felicidade através da multiplicação das possibilidades. Mas talvez a liberdade autêntica estivesse precisamente no contrário: em sua redução.

Menos ruídos.

Menos distrações.

Menos máscaras.

Durante meses viveu assim.

Não sabia se retornaria um dia. Nem se tal retorno faria sentido. Essa indeterminação já não o inquietava. Pelo contrário, tornara-se uma forma de serenidade.

Num mundo obcecado pela permanência e pela segurança, Artur escolhera o risco antigo da existência desnuda.

Alguns chamariam aquilo de fuga.

Talvez estivessem certos, mas isso não importava mais para Artur.

Certo dia, ao caminhar entre os pinheiros negros enquanto a neve começava a cair, ele experimentou algo raro na vida moderna: uma sensação nítida de realidade. Pela primeira vez, em anos, sentiu-se verdadeiramente vivo. Com um sorriso, entrou mais fundo na floresta, ainda mais rumo ao norte. E nunca mais voltou.

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Que dia ❤️‍🔥

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Um encontro inesperado

Fui convidado por uma banda do sul para tocar. O baixista deles tinha sofrido um machucado sério e precisaria ficar alguns dias sem tocar. Como éramos amigos, ele nem perguntou se eu poderia cobrir as noites para ele — simplesmente fez questão de que eu fosse.

Também insistiu para que eu ficasse hospedado na casa dele. Assim poderíamos colocar o papo em dia, eu aproveitaria minhas férias, conheceria uma cidade nova e, ao mesmo tempo, ele não deixaria os amigos na mão.

Claro que eu topei.

Arrumei minha mala, meus equipamentos e rumei para Porto Alegre para passar um tempo por lá.

Cheguei com meus baixos, malas e um violão. Como meu amigo morava perto da praia, eu queria aproveitar algumas noites por lá, curtindo o som e tocando um pouco.

Em uma das noites da primeira semana, um rapaz se aproximou e perguntou se havia problema eles ficarem por perto ouvindo eu tocar. Disseram que estavam gostando do som e do clima da praia.

Eu disse que podiam ficar à vontade.

Eles se acomodaram a uma certa distância. Eu ouvia as palmas no final de algumas músicas, e às vezes até cantavam junto de onde estavam. Mas eu estava tão concentrado tocando que nem percebi quando foram embora.

Na sexta-feira à noite, a banda tinha um show marcado em uma casa de rock. O clima estava ótimo. Seríamos a segunda banda da noite — os caras já tinham uma certa fama na região — e a casa estava lotada.

Entre uma música e outra, eles me apresentaram ao público, explicando que eu estava substituindo o integrante que havia se machucado. Mesmo assim, ele estava lá todas as noites, curtindo o show bem na frente do palco.

Foi então que percebi alguém familiar ali na frente.

Uma mulher loira, de vestido preto longo, que marcava perfeitamente a silhueta. Muito bonita. Ela olhava para mim enquanto batia palmas e cantava as músicas com a gente.

Toda vez que eu olhava para ela, ela já estava olhando para mim.

Achei que fosse porque eu fazia algumas brincadeiras no palco com o guitarrista… mas ele também percebeu.

A banda se despediu, entregamos o palco para a próxima e eu decidi ficar por ali para curtir o resto da noite. Guardei meu equipamento no carro e voltei para a pista.

Foi quando ouvi uma voz atrás de mim.

— Ei, baixista! Toca muito, viu? Parabéns!

Virei e era ela.

— Opa! Gostou? Eu estava meio nervoso no começo… — respondi, tentando lembrar de onde a conhecia.

Ela sorriu.

— Lembra de mim? Eu estava na praia aquele dia, te ouvindo tocar.

— Ahhh, sim! Verdade! — respondi, meio sem graça pela falha de memória.

— Cadê o pessoal da banda? Te deixaram aqui?

— Eles foram embora. Têm compromissos cedo amanhã. Eu fiquei para curtir a próxima banda.

— Nossa… então dei sorte.

— Então, senhorita… qual o seu nome?

— Valéria.

— Nome bonito. Eu sou o Mr.

— Mr? De onde saiu esse apelido?

— Inspirado em um filme… acabou pegando.

Ela riu.

— Gostei.

— E você? Está acompanhada? Não estou te atrapalhando, né?

A conversa foi fluindo naturalmente. Ela contou que tinha levado um bolo das amigas naquela noite e que o marido estava em uma viagem longa de trabalho.

Eu contei que também estava sozinho, hospedado na casa do amigo que eu estava substituindo.

Quando percebi, já estávamos sentados em uma mesa com vista para o palco, curtindo tanto a companhia um do outro quanto a banda que tocava.

Quando começaram as músicas mais dançantes, fomos para a pista. Como a mesa tinha sido reservada para mim pela casa, podíamos ir e voltar tranquilos.

Pulamos, cantamos, dançamos.

Foi ali que pude reparar melhor nela.

Valéria era simplesmente impressionante.

O vestido desenhava cada curva do corpo dela. Tudo parecia perfeitamente no lugar, como uma obra de arte.

Nas músicas mais lentas ela se aproximava mais. Os braços envolviam meu pescoço, dançávamos colados, trocando algumas palavras e risadas no meu ouvido.

Então um violão começou a dedilhar uma melodia conhecida.

Nothing Else Matters.

Comecei a cantar baixinho junto com a música.

Ela me olhou.

E nos beijamos ali mesmo.

Quando nos afastamos, eu ainda meio sem reação tentei falar:

— Valéria… me desculpa, eu não tive…

Ela colocou o dedo nos meus lábios.

— Shhh… relaxa, bobinho. Eu estava querendo isso desde quando te reconheci no palco.

— Mas e…

— Está tudo bem. Eu estou liberada… e ele sabe.

— Sério?

Ela pegou o celular na bolsa e me mostrou a conversa com o marido. Ele perguntava se ela já tinha encontrado alguém para aquela noite.

Ela havia respondido que tinha me encontrado e que achava que algo ia acontecer.

Aquilo me pegou de surpresa.

Puxei ela de volta e a beijei novamente.

Os lábios dela eram macios, a boca quente, a pele quente. O beijo era intenso, ardente, como se o resto do mundo tivesse desaparecido ao nosso redor.

Ela encostou o rosto no meu ouvido e sussurrou:

— Quer sair daqui?

— Quero… o que você sugere?

Ela sorriu.

— Minha casa.

Voltamos para a mesa ainda trocando beijos e risadas. Eu paguei a conta e fomos para o estacionamento.

Ela queria chamar um carro por aplicativo, mas eu disse que estava de carro e que poderíamos ir nele.

Abri a porta para ela entrar.

Antes mesmo de ligarmos o carro, nos beijamos novamente ali no estacionamento.

Durante o caminho, a conversa se misturava com beijos roubados e olhares cheios de desejo.

Quando chegamos na garagem do prédio dela, mal conseguimos esperar.

Ela pulou no meu colo e nos beijamos ali mesmo por alguns minutos.

Subimos para o apartamento tentando manter a compostura — o elevador tinha câmera.

Mas assim que a porta da sala se fechou, ela se transformou.

Jogou os sapatos longe.

Sob a luz da sala pude vê-la melhor. Cabelos loiros caindo sobre os ombros, curvas marcantes, o vestido colado ao corpo.

Ela levou a mão às alças do vestido.

— Calma… — eu disse.

— Quero aproveitar você dentro dele mais um pouco.

Ela sorriu e deixou uma das alças cair lentamente pelo ombro.

Eu a puxei para perto novamente.

Ela se enrolou em mim e fomos tropeçando até o sofá, entre beijos, risadas e mãos explorando cada pedaço do corpo um do outro.

O vestido deslizou devagar.

Quando finalmente caiu, revelou o corpo que eu já imaginava desde a pista de dança.

Um corpo delicioso, perfeito para mim, eu tiro a minha camisa e ela desce a minha calça e cueca jutnos. Eu a coloco sentada no sofá e levo minha boca na boceta dela, lisinha, molhada de desejo e quente de tesão.

Ela geme alto quando eu começo a chupar aquele grelo maravilhoso, que gosto maravilhoso que ela tem. Meus dedos arracavam gemidos dela também quando começaram a brincar com seu clitóris e com sua vagina. Eu a tocava bem no fundo, chupava forte, beijava sua virilha deixando ela cada vez mais excitada.

Aos poucos vou subindo, beijando sua barriga, paro um pouco para curtir seus seios, enquanto isso minhas mãos bricavam com sua boceta molhadinha. Beijo sua boca para sentir um pouco do seu gostinho que ainda estava nela, fico por cima dela, que com uma mão direciona meu paul para a entrada.

- Mete! quero te sentir vai!

Eu com um movimento encaixo ele que deslisa fácil para dentro dela, ela geme forte ,alto, me aperta, puxa meus cabelos, morde meu pescoço. Eu aumento a intensidade dos movimentos, ela geme mais e mais, depois de um tempo ela me empurra e se ajoelha no sofa de costas pra mim. Que visão maravilhosa daquela bunda, pernas e costas.
Eu chego por trás e encaixo nela novamente, que solta um gritinho, eu vou metendo e acelerando aos poucos, minhas mãos passeando no corpo dela todo, nossos gemidos tomam conta da sala e sinto ela ficar bamba, a tremer, ela goza pra mim deliciosamente, o tesão era tando que escorre entre as pernas dela o gozo.

Eu a abraço e seguro seus seios e continuo metendo e beijando ela por trás, eu já não aguentava me segurar, a voz dela, os gemidos o corpo me deixaram super excitado e eu gozo nela, que não me deixa sair de dentro e faz uns movimentos de vai e vem comigo ainda lá dentro.

- Vocẽ é maravilhosa, sabia!?
- Você acha?
- Agora eu tenho certeza!
- Então vem cá, você vai gostar mais ainda…

Ela senta no sofá e começa a me chupar, limpando nosso gozo misturado e me excitando mais uma vez…

Se a Valéria (@contos-de-valeria) gostar, posto uma continuação!

PS: Ela gostou. \o/

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fromtthelake
fromtthelake

Sono da Peste


Carta de número doze

Escrita em papel pálido, em letra cursiva.

Recebida entre o fim de abril e o começo de maio.


De: Antonietta Lobato

Para: Dr. Fonseca S. Andemão


“Pois bem, senhor Doutor, escrevo para você com notícias do problema que venho reclamando todo esse tempo. Acontece que, na noite passada, não preguei o olho. Virava para um lado e despertava, virava para o outro e despertava. Achei a coisa mais estranha, me deu até uma melancolia braba.

Doutor, o trem foi tão complicado que, de manhã pra noite, eu devo ter botado pra dentro um litro de café pra mais. Não faz bem, eu sei disso, o senhor já falou que se eu não tratar da úlcera vou acabar tendo um problemão. Ou, como eu gosto de falar e você odeia, não vou ter problema algum porque vou ter partido desta pra melhor. Penso nisso às vezes, será que o “melhor” é porque não tem doença pra onde a gente vai? Será que lá vou conseguir dormir? Viajei longe agora.

Queria só que soubesse que a sua ajuda na verdade não mudou muita coisa não. Me perguntaram aqui na vizinhança que que o Doutor Fonseca tinha pra ensinar que ajudasse no sono, falei pra elas, falei pra tomar o remédio que o senhor deu, olhar o reflexo no espelho, dar as voltas, são três, né? e aí é só esperar, que ajuda.

Uma delas não gostou muito não, achou que o papo tava estranho, até deixou a conversa mais cedo, passou pra dentro e trancou o portão. Tem gente que tem medo do que não entende mesmo, fiquei sabendo que ela é crente, só acredita no que homem fala em cima de altar. Enfim, não gosto de julgar também, cada um é cada um.

Senhor Doutor, se souber de algo aí que possa me ajudar, tô aceitando. Antes pelo menos eu cochilava um pouco, agora mal tô pregando o olho. E o ruim, o senhor sabe, é que quando não tô dormindo, fico a noite toda encarando as alma ruim pendurada no teto.”


—S.G.


(Me diverti horrores escrevendo isso aqui no meio de uma crise de insônia e depois tendo que encarar o teto até dormir!! <3)

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escritordegaveta
escritordegaveta

Falsa Bandeira


Ele aprendeu cedo a linguagem da revolução. Falava sobre ela com reverência e entusiasmo e a convicção de que nessa palavra repousava algo essencial. Falava em libertação, em consciência, em ruptura. Havia outras palavras grandes, inflamadas, e a promessa tácita de que, ao final do percurso, o mundo deixaria de ser uma farsa administrada por sombras.

Durante algum tempo, acreditou.

Marchou. Discursou. Escreveu manifestos que julgava inadiáveis. Confundiu exaustão com virtude e rigidez moral com lucidez crítica. Achava que reconhecer o inimigo bastava para vencê-lo. E, sobretudo, acreditava que aqueles ao seu redor viam o mesmo que ele via, que distinguiam o risco do conforto, o real da encenação.

Hoje, sentado num quarto silencioso, percebe o quão ingênua fora essa suposição.

A revolução não fora derrotada; fora substituída.

Onde antes havia conflito verdadeiro, surgiram slogans inofensivos. Onde havia risco pessoal, instalaram-se carreiras. Onde se falava em transformação radical, passou-se a gerir consensos. Os rostos mudaram, mas os mecanismos permaneceram intactos. O sistema aprendera a imitar seus críticos melhor do que eles próprios.

Ele observa antigos camaradas em telas luminosas, repetindo fórmulas previsíveis, colhendo aplausos que soam estranhamente ocos. Tudo parece correto, ajustado, aceitável, e, exatamente por isso, falso. Não são traidores no sentido clássico; são algo pior: adaptados.

E então ele pensa em você.

Você não era o mais eloquente nem o mais visível. Mas era quem fazia a pergunta incômoda quando todos preferiam o silêncio conveniente. Era quem percebia quando a causa começava a soar como um produto. Com você, havia desacordo, tensão, fricção, sinais inequívocos de que ainda se estava vivo.

Quando você se afastou, disseram que era cansaço. Depois, maturidade. Por fim, que era inevitável. Ele aceitou essas explicações como quem aceita uma anestesia: não porque curam, mas porque aliviam momentaneamente a dor.

Só mais tarde entendeu o que realmente acontecera. Você não desapareceu. Foi substituído por versões mais palatáveis da mesma ideia, por pessoas que sabiam falar sem dizer, agir sem comprometer, criticar sem ameaçar. O movimento seguiu em frente, orgulhoso de sua continuidade, sem perceber que continuava apenas na forma, não no conteúdo.

Ele sente falta não de uma vitória, nunca acreditou em finais triunfais, mas de algo mais elementar: a honestidade do fracasso assumido. Sente falta de alguém que soubesse reconhecer a diferença entre lutar e representar uma luta.

Levanta-se, caminha até a janela. A cidade pulsa com sua rotina impecável. Tudo funciona. Tudo prossegue. E, no entanto, algo essencial foi trocado por uma imitação eficiente.

Ele pensa, com amargura oculta, que talvez o maior triunfo do sistema tenha sido convencer seus opositores de que ainda estão combatendo, quando já não fazem mais do que ocupar papéis previamente tolerados.

Antes de apagar a luz, finalmente formula o pensamento que evita há anos, não como um consolo, mas como um diagnóstico:

O erro não foi perder a revolução.

O erro foi continuar quando ela já não estava mais ali.

E, pela primeira vez em muito tempo, permite-se desejar não um retorno impossível, não uma vitória tardia, mas apenas que você ainda estivesse aqui para confirmar que aquilo tudo, ao menos uma vez, foi real.

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erbrios
erbrios

Pedido de Ajuda

tempos modernos

faça bom uso


era uma luz
era um ponto cego

jogava
trabalhava

nasceu
rompeu

agora um enxerga
e o outro sente

o estagiário verifica
o funcionário trata

um teme
outro treme

uma voz
uma vez

um leme
outro piloto

socorro
uma boia

era uma vez
e foram felizes para sempre

um
e outro

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hereanasays
hereanasays

Puta da pior espécie

É imoral o quanto eu tenho estado louca de tesão. Em nenhum momento em todos esses anos que estou viva eu estive tão sedenta de vontade de sentir um pau duro feito pedra dentro de mim quanto agora. E a merda é que é um pau específico, justo o que eu não posso ter. Um que eu nunca nem vi, mas que meu instinto me diz que teria me preenchido tão bem. Se eu tivesse juízo, eu conseguiria resistir melhor, a razão tenta me explicar. Mas quem disse que a minha vagina consegue escutar? Eu estou tão excitada que decidi mandar a sensatez para o caralho. E eu vou aproveitar o momento. Porque quando isso passar e ele já não me causar mais tanto torpor, eu sei que nada vai ser suficiente para me deixar tão molhada. Nada vai ser tão gostoso. E vai ser assim por um bom tempo, maior do que eu gostaria.

Eu estou perdendo a cabeça e é desesperador do jeito mais delicioso possível. Não consigo mais raciocinar, tomar qualquer decisão se tornou um martírio. Não consigo mais respirar normalmente, apenas arfar. E rebolar e foder qualquer superfície que esteja disponível. Eu já cheguei a chorar por não estar sendo comida como eu queria e por quem eu queria. E não se engane pensando que tanto desejo é culpa do meu período fértil. É o tempo todo. Todos os dias. A cada segundo. Eu de fato fui teletransportada de volta para a minha adolescência, quando eu estava descobrindo minha sexualidade e nada era mais importante do que sentir todas aquelas sensações novas e tão agradáveis que eu nem sabia que o meu corpo era capaz de produzir. Só que agora, uma década depois, eu tenho um pouquinho mais de experiência e algumas cartas a mais na manga.

E eu voltei a ler literatura erótica. Que saudade que eu tava de ler um livro que tem mais que uma única cena de sexo genérica e superficial. Julianna Costa, você sabe escrever putaria como ninguém. Eu cansei de fingir ser puritana. Eu gosto disso. Gosto dos detalhes, gosto dos fetiches, gosto de encontrar coisas que me matam de vontade de experimentar. E aí é que mora o perigo. Quando eu comecei a lê-los, eu era ingênua o suficiente para conseguir me imaginar no lugar da personagem principal, e isso me satisfazia. Eu pensei que eu poderia fazer isso de novo. Era um plano brilhante na verdade: Se eu gastasse todo o meu tempo livre me imaginando sendo fodida de todas as formas por um gostoso fictício com uma piroca enorme, não seria viável pensar em mais ninguém. Só que foi tudo por água abaixo porque o meu coração me traiu. Eu só consigo me imaginar fazendo todas aquelas coisas com ele.

E ontem deve ter sido o terceiro, ou quarto, ou quinto ou até mais, perdi as contas, dia em que eu repeti a mesma rotina. Acordar gozando pensando nele e dormir gozando pensando nele. E pensar que, por anos e anos da minha vida, eu tive preguiça de me masturbar. Se eu tinha um orgasmo por mês era muito. E aqui estamos, com dois, três, às vezes quatro por dia. E nunca é o suficiente para dissipar completamente tanta energia de dentro de mim. Então ontem à noite eu decidi me depilar. Eu precisava sentir mais, era urgente. Eu me orgulho de sempre testar algo novo quando me toco. Um ritmo diferente, uma posição diferente, um movimento diferente, um acessório diferente. Toda vez é muito única e isso é muito especial. Eu aprendi a apreciar esses momentos e construir um catálogo mental de tudo o que me faz sentir tantos estímulos sensoriais incríveis.

Mas ver e sentir a minha boceta raspada, subiu bem alto para o topo da minha lista. Não é que eu nunca tenha feito isso antes, mas é que tornou tudo mais real. Foi como se eu estivesse há dias andando por um deserto procurando por água e quando eu encontrei, era apenas uma quantidade que cabe em uma tampinha de garrafa de plástico. Eu tenho muitas inseguranças mas minha boceta não é uma delas. Ela é linda e eu sei disso. Eu deveria olhá-la e admirá-la com mais frequência. E eu sei que ele acharia ela linda também. Ele amaria olhá-la, admirá-la, tocá-la, cheirá-la, lambê-la, chupá-la. E só essa imagem mental foi o suficiente. Eu me desfiz em mil pedacinhos. A crueldade de fantasiar com algo tão real que você quase consegue sentir isso de verdade ali na sua pele se confundiu com prazer. É maravilhoso de um jeito torturante. É libertador. Mas não é o bastante. Nunca é. E é assim que têm sido as minhas noites nos últimos meses e até anos se extrapolarmos os responsáveis por esse sentimento. Eu sempre quero mais, mas nunca há o que eu possa fazer. Eu nunca esperei que alguém fizesse por mim o que eu tinha vontade de ter, eu sempre dei um jeito de conseguir de qualquer maneira. Mas nesse âmbito, eu tô muito, muito, mas muito perto do limite do que consigo fazer por mim. E eu vou continuar insaciavelmente querendo mais.

Acordei hoje e de praxe, precisava de mais. Acho que inconscientemente estou tentando suprir o que eu não consigo obter em intensidade com quantidade. Foram ao trabalho mais um capítulo do livro e ao lado meu vibrador em stand-by. Eu tinha cerca de duas horas até o horário de uma reunião do trabalho. Tempo mais que suficiente, não? Eu também pensei. Mas eu não contava que minha boceta raspadinha estivesse tão deliciosa de acariciar. Mesmo antes de eu ler uma palavra safada sequer minha boceta já estava completamente encharcada. Eu tô revirando os olhos só de lembrar. Como foi gostoso aquele toque, no meu clitóris, na minha entrada. Bem leve, devagar, suave como uma pluma. Me alonguei enquanto deu, mas a minha bocetinha é bastante gulosa como você já deve ter notado. Sabe um fato curioso? Eu demorei bastante tempo para sentir prazer com penetração. No começo doía, e eu nem tentava. Depois passou a ficar mais fácil, mas não me causava nenhuma sensação, então eu me atinha à estimulação externa. Sabe quando isso mudou? No final do ano passado. Quando eu necessitava tanto dele que a única visão que a minha mente conseguia criar era ele estocando implacavelmente em mim. E eu decidi tentar replicar com o meu vibrador. E aquela sensação foi nova mesmo, transcendental. Ao ponto de me fazer questionar o porquê eu não tinha tentado com mais afinco antes. Mas eu sei que não teria funcionado. O segredo era ele.

Então vamos à cena: Após um bom tempo me dedilhando, quase à beira do precipício, decidi que era hora do meu vibrador entrar em ação. E aqui, acho que vale a descrição: Em uma ponta ele é um sugador, para o clitóris. Na outra ponta, ele simula um pênis, mas é bem pequeno. Eu até sou apertadinha, mas no nível de excitação em que eu tava, confesso que me fez falta mais volume. Mas como sempre, dou meu jeito e me viro com o que eu tenho. Essa segunda parte, quando eu comprei, fazia um movimento de vai e vem, além de vibrar. Mas estragou e agora só o sugador funciona. E de qualquer forma, o movimento era bem mínimo, era só a cabecinha que se mexia e eram poucos centímetros. O que eu percebi que é gostoso mesmo, é tirar quase tudo e colocar de volta, bem lá no fundo, impiedosamente, o que me faz ter que fazer o serviço manualmente. Só que por mais vigor que o tesão me dê, e também por conta da posição, meu braço cansa muito mais rápido do que eu gostaria. E nesses momentos, é inevitável chegar à conclusão de que um homem metendo feito um touro, de preferência ele, mas também não vou me prender a isso, me faria chegar lá desse jeito e me faria ver estrelas. Mas não temos isso, e eu me lembro que eu preciso dar um jeito de dar conta sozinha.

Olho para o relógio, 10:40. A reunião é às 11 horas, com o meu chefe. Não me dei conta de quanto tempo tinha passado, e eu ainda não tinha gozado nenhuma vez. Eu até consigo gozar em bem menos tempo que isso, mas quando eu demoro assim, uma coisa é certa: O alívio vem arrebatador. O tempo restante é curto, então deixo a mini cópia fajuta de pênis feita de silicone dentro de mim e ligo o sugador. Por mais que eu ainda não consiga gozar quando eu estimulo minha vagina com a penetração do vibrador, a sensação de estimular meu clitóris logo após é quase divina. Aos poucos, meu orgasmo vai dolorosamente sendo construído, mas toda vez que eu penso que estou praticamente lá, eu vou ficando cada vez mais sensível e sinto tudo mais intensamente, a ponto de não saber mais quanto tempo consigo suportar. 10:55. Merda. Eu acho que estou muito perto, mas sinceramente? É impossível dizer. Eu não posso parar, não consigo. Não tem como eu ir para uma reunião sem ter chegado ao clímax. Aumento a potência do vibrador. 10:58. Foda-se. Eu arrumo uma desculpa para não ter aparecido na reunião depois. Eu consigo ser bem convincente quando eu quero. Paro de olhar para o relógio e me concentro em chegar ao meu objetivo. E ele vem, magnífico, extraordinário. Me fazendo sentir cada uma das terminações nervosas dentro de mim. Me tirando de órbita por uns bons segundos. E eu gemi alto e gritei o nome dele como a boa vagabunda que eu sou. Não posso tê-lo, mas posso fingir que tenho e ninguém precisa saber.

E mesmo quando passa, ainda tá gostoso demais. Eu congelo, não consigo desligar o vibrador e levantar. Então eu continuo ali, rebolando e curtindo a sensação. Até que me ocorre algo que nunca aconteceu: um segundo orgasmo, logo em seguida. Menor, mas glorioso do seu jeito. Dessa vez não tenho saída, preciso levantar. 11:01, estou atrasada. Ligo o computador enquanto procuro minha calcinha. Só que eu estava vestindo uma calcinha preta, que coincide em ser a mesma cor do meu edredom. Não a encontro e não tenho mais tempo. Vou ter que ficar sem. Coloco um vestido e abro a chamada de vídeo. A outra coisa boa sobre estar depilada, é que não tem pelos para absorver os meus fluidos. Então, por 30 minutos, mantive cara de paisagem e conversei com meu chefe sobre trabalho, ainda sentindo resquícios do que tinha acabado de acontecer e sentindo os meus líquidos escorrendo para fora de mim. Cara de paisagem. Enquanto eu desejava que a porra dele estivesse ali escorrendo junto como eu nunca desejei nada na vida. Pingando na minha cadeira de escritório como se estivesse marcando o território dele nela. E todos os dias me obrigando a lembrar disso quando fosse sentar nela para trabalhar. O absurdo dessa situação, de estar pensando coisas tão obscenas e pervertidas em um ambiente onde eu estava lutando para manter a decência e a seriedade, me excitou como poucas coisas já fizeram antes. Tanto que precisei escrever isso aqui, para dar vazão à fome. E colocar isso tudo em palavras não diminuiu a ânsia, só multiplicou. Durante as últimas quase 3 horas que eu gastei escrevendo isso, ainda sem calcinha, eu só consigo pensar em continuar o que foi interrompido e eu vou. Acho que a conclusão é que nunca vai ser o suficiente, não é? E que bom. Bem-vinda de volta piranha. Senti sua falta.

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palhao84
palhao84

A montanha que todo profissional conhece

São João da Cruz escreveu no século XVI sobre uma jornada difícil: a subida de uma montanha escura, sem outra luz além da que ardia por dentro. Escreveu para místicos. Mas poderia ter escrito para qualquer pessoa no meio de uma carreira.

João, o menino do conto, deixa para trás as distrações confortáveis e parte. No caminho, encontra os Trevins — pequenas criaturas que tentam apagar sua luz. Quanto mais ele luta contra elas, mais crescem. Só quando para de resistir e confia é que elas se transformam em pedras que iluminam o caminho.

Quantas vezes, no ambiente corporativo, desperdiçamos energia lutando contra obstáculos que, se aceitos com calma, teriam se tornado aprendizado?

Depois vem a parte mais difícil: a passagem íngreme onde João insiste em subir sozinho. Bate o pé. Tropeça. Recusa ajuda. Até perceber que ser carregado não é fraqueza — é sabedoria.

O profissional que não delega, que não pede mentoria, que confunde independência com competência, conhece bem essa pedra. E a maioria só aprende no tropeço.
No cume, o encontro não é com um prêmio ou um cargo. É com algo que já o conhecia — que sabia de cada dúvida, cada queda, cada momento em que ele quis voltar. No mundo corporativo chamamos isso de propósito. A sensação de que o trabalho, finalmente, faz sentido além do salário.

E a descida? João vê o mesmo caminho com olhos diferentes. Os brinquedos e o brigadeiro ainda estão lá — as coisas do mundo não desaparecem. Mas nenhuma delas apaga mais a brasa.

Resultados, reconhecimento, conforto material: têm seu lugar. Só deixam de ser o centro.

“A Noite Ditosa” é um conto infantil inspirado em São João da Cruz — mas, como toda boa história, fala para qualquer idade.

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Lisboa - Londres

Ana Sofia Alves


Sempre que as violentas ondas me sacudiam e destruíam os meus palácios de princesa, eu via-me a ancorar nas tuas mãos. Quando as ondas esverdeadas, cristalinas e espumosas rebentavam na areia, toda a minha vida, o meu sangue, os meus pensamentos, memórias e desejos eram sugados pelo oceano. Depois, sem me aperceber, estavas lá, com as tuas mãos, as tuas redes, que me resgatavam da turbulência. E depois… Depois, eu era uma praia nua, de areia clara e fria, à espera do meu Verão.

Passaram-se anos e hoje já não espero pelo Verão. As estações sucedem-se no seu ciclo habitual, embora cada vez mais disformes e difusas. Quando acordo a meio da noite e relembro aquele Inverno, penso em ti e, aos poucos, o sangue volta a percorrer a minha face, dando-lhe novamente cor.


Apanhei o autocarro apressado porque me atrasei a sair de casa. Hoje custou-me a acordar. Senti o peso do mundo em cima dos ombros e, quando me quis levantar, esse peso empurrou-me para o fundo dos lençóis, tentando esmagar-me na doçura da manhã. Ontem à noite, antes de adormecer, pensei em ti. Eras tão engraçada com o teu mau feitio… Refilavas muito se eu te chamasse à atenção, embora, muda, reconhecesses os teus erros. Recusaste despedir-te de mim, porque as despedidas são para sempre, dizias, mas, muda, olhaste-me nos olhos com um beijo de despedida e a minha partida foi muito mais suave. Parti de madrugada, levando na bagagem um rol de lágrimas não derramadas e uma caixa de bombons. Saboreei cada bombom, cada sensação doce e amarga que me foi oferecida, e deixei-me ir pelo meio das nuvens.

Naquela tarde, fizemos amor e soubemos que já não havia forma de voltar atrás. No meio de risos e de uma alegria contagiante, embebidos pelo ritmo do jazz que escutávamos, deixámo-nos ir mais além. O calor da tua pele a tocar na minha, os teus lábios de uma cor viva a desejarem os meus, os teus cabelos soltos, nós os dois, sem compromissos… Night and day, you are the one. Deixámo-nos arder, até nos tornarmos cinza e renascermos. Fomos ao inferno e voltámos, conscientes da nossa ousadia. No fim, restariam apenas consequências.

Adormecemos abraçados, como dois amantes apaixonados a quem o sol sorriu um dia. Os astros foram as nossas testemunhas e só eles sabem as juras que fizemos sem falar. Só eles sabem que, afinal, ambos queríamos a eternidade.


Quanto mais percorro estas ruas, mais certezas tenho de que o céu não é igual para todos. A realidade é um momento. Pé ante pé, avançamos e o contexto muda. A realidade é feita de linhas ténues, de movimentos transparentes e tem uma existência breve e mutável.

Agarro o puxador da porta e todas aquelas questões que tentei mandar para trás das costas aparecem novamente. Todas as perguntas se resumem a uma: É mesmo isto que queres fazer da tua vida, Rita?

Agora já não há outro caminho. Os dedos, sem força, agarram o puxador e, trémula e lentamente, a porta vai-se abrindo. Não me demorei. Saí transparente, difundindo-me na realidade irreal. Este momento de transição fez-me crer estar a dar os passos de outra pessoa e não os meus. Depois vêm os porquês. Até à minha partida vou ser interrogada várias vezes. Decidi dar sempre a mesma resposta: Porque não?

Coloco os fones nos ouvidos para me perder melhor na realidade. Baby, baby it’s a wild world… Se eu me perder, peço que me encontrem só depois das doze badaladas.


Quando não esperava voltar a ser surpreendido, apareceste à minha porta. De Lisboa para Londres, voaste na minha direcção. No Sábado, tocaram-me à porta e, por ser tão pouco usual, não sabia o que me esperava. Dirigi-me para a porta a pensar na manhã cinzenta e nas saudades que sentia do sol de Lisboa, abri-a e, de repente, a luz de Lisboa desarmou-me.

Por momentos, julguei estar a sonhar e a fugir da realidade, até que a tua voz, ao longe, me disse: “Desculpa ter aparecido sem avisar.”

Pisquei os olhos e acordei para a realidade. Estavas à minha porta, em Londres, e a tua voz nunca me soou tão bem! Tive vontade de te abraçar e beijar como da última vez. Em vez disso, dei-te um longo abraço e uma lágrima rebelde rolou pela minha face.

Em palavras surdas disse: “Rita, estás aqui.” Deixámo-nos ficar em silêncio, imóveis, no tempo só nosso.


Os dias passavam e eu deixava-me ser pisada por eles. Marchavam os dias sobre mim, corriam os dias sobre mim, dormiam os dias sobre mim. Eu ficava imóvel. Por baixo dos dias, jazia uma pele, um corpo, um coração e uma alma. Por baixo dos dias, o meu coração acordou. Foi assim que tomei a decisão de partir.

No reencontro, abraçámo-nos para, como estátuas, sentirmos a infinitude dos dias. Expliquei-te porque parti, receosa do que me pudesses dizer. Deixei as lágrimas rolarem. A minha cara inundada, a minha garganta desértica. As palavras ganhavam corpo naquela água salgada que deslizava pela minha face e que as tuas mãos tentavam dissipar. As tuas mãos afagavam-me o rosto e puxavam-me para junto de ti. Encostada a ti, chorei. O meu corpo apertado ao teu, as tuas mãos na minha nuca, o teu cheiro tão próximo de mim. A infinitude como um calor que se propaga a partir do nosso centro. O universo a abraçar-me.


Não tive coragem de te chamar à razão, não depois de te ver destroçada nos meus braços. Ainda para mais, invejei a tua coragem. Não estarias tu mais certa do que eu? Por mais que pensasse em voltar, uma parte de mim sentia vergonha porque teria de admitir que nunca deveria ter partido. E assim se passam dias, semanas, meses e anos. 2 anos. Assim nos deixamos afundar. Perdemos a voz, tapamos os olhos, acordamos para dormir mais um pouco. Descobrimos, nalguns dias, que vivemos nos nossos sonhos. No nosso sono vívido, por vezes, deixamo-nos perder nos sonhos que nos visitaram na noite anterior. Percebemos que não os deixámos escapar. Estúpidos, decidimos dar meia volta e abandoná-los. E os clichés fazem-nos sentir ainda mais parvos. E as frases feitas fazem-nos sentir idiotas. Eu bem te avisei. E as frases feitas que dissemos a nós mesmos assentam-nos que nem uma luva, aquelas frases que pensámos e que só nós conhecíamos porque falavam dos nossos mais íntimos desejos. Apercebemo-nos de que nos conhecemos melhor do que pensamos mas que nos faltam tomates. É melhor acreditar que os outros sabem melhor o que é melhor para nós. O oposto implica dizer ao mundo que estamos aqui para o que der e vier. O furacão aproxima-se e nós, hirtos no meio da cidade, anunciamos o nosso Eu. Foi assim que abandonei a racionalidade e me deixei controlar pela agonia. Depois da agonia, a tristeza. No nosso abraço, as lágrimas entrelaçavam-nos.


Samuel piscava os olhos e fazia pequenos movimentos com a cabeça. Para a frente. Para trás. Os olhos vítreos liam um conjunto de linhas, parágrafos e textos que não eram visíveis aos nossos olhos. Os seus olhos processavam múltiplas informações, como um ficheiro que corre velozmente num computador até chegarmos aos resultados finais. Os olhos abriam-se e fechavam-se como pequenas janelinhas num ecrã. Quadradinhos com luz. Escuro. Quadradinhos. Luz. Escuro. Letras e números passavam velozes naquele olhar de vidro.

Samuel estava pálido.

“Que será de nós?”, pensou Rita. Agarrou-lhe na mão e pediu que aquele toque tivesse forças para o puxar de novo para a realidade.

Foram muitos dias corridos, muitas horas e semanas de trabalho árduo. A Rita já o tinha avisado. Somos máquinas mas temos os nossos limites.

Os olhos fecharam-se, a cabeça pesou como uma âncora. Samuel deixou-se cair na cadeira. As pernas fraquejavam e já não suportavam mais o peso daquela cabeça.

Rita segurou-lhe na mão. Ficaram assim. Naqueles segundos residiam horas de aço, nervos de aço.

Samuel abriu os olhos. Lentamente, os seus dedos fecharam-se por entre os dedos de Rita. Eram palavras ocultas.

“Vamos voltar”, disse por fim. “Chega deste céu sem cor, chega deste cinzento.”

Abraçaram-se. A decisão estava tomada.

Rita levantou-se. “Vou arranjar um chá para nós.”

Enquanto Rita se dirigia para a cozinha, Samuel deixou-se ficar na cadeira, vazio. Ainda há pouco se sentia preso a um destino que não lhe pertencia e agora estava a poder apreciar novamente a sua liberdade, sem mais informações para processar.

Enquanto Rita colocava a chaleira com água ao lume, Samuel pensava na sua infância. Tinha sido na sua infância que tinha experienciado pela primeira vez a liberdade. Não o sabia na altura e, por essa razão, talvez fosse uma liberdade mais pura. Na casa dos seus avós, Samuel gostava de pegar em livros, correr atrás do gordo Napoleão, tentar pegar naquele volumoso gato laranja, metê-lo no cadeirão do seu avô e ler-lhe aquilo que encontrava.

A chaleira começou a apitar. Este ruído transportou-o novamente para a casa dos seus avós, no campo, onde, nos dias frios de Inverno, a sua avó aquecia a água para o chá para que pudessem aquecer as mãos e o corpo a partir de uma caneca. A chaleira apitava e, com 10 anos, Samuel imaginava que o comboio ia partir para iniciar uma nova viagem. Bebia o chá o mais rápido que podia. Por vezes queimava-se na sua pressa jovem. Saía a correr da sala, agarrava numa boina do seu avô e fingia estar a controlar um comboio. Corria pela casa, fazendo paragens no seu percurso para deixar entrar e sair os passageiros. Terminava o percurso sempre no mesmo sítio, nas escadas que o levavam até aos quartos. Cada quarto era um mundo fechado que ainda não estava ao seu alcance. Por vezes, depois de cada viagem, detinha-se em frente a uma das portas e pensava no que sonhava cada pessoa que ali dormia. Eram outros mundos. Acreditava que cada pessoa imaginava e sonhava um mundo diferente, o seu próprio mundo. Era isso que ele fazia no seu quarto: sonhava e imaginava o mundo. No entanto, com os anos, viu-se esquecer dos sonhos. O seu quarto que outrora tinha sido um espaço de contemplação tinha-se tornado um depósito de problemas e frustrações. Tinha deixado a porta demasiado aberta para a realidade.

“Toma.” Rita estendeu-lhe uma chávena e sentou-se junto dele. Anoitecia e as sombras das árvores começavam a entrar pela janela. O chão cobria-se com um tapete de ramos e folhas que oscilavam muito devagar. Hoje era ela que o ancorava.

A noite iria terminar cedo. Precisavam de repouso. Os guerreiros preparam-se para as batalhas. Nas suas cabeças, concentram forças que lhes permitam vencer. Preparam-se para a guerra de corpo e espírito. Prometem a si mesmos não dobrar os seus pensamentos, não flectir as suas esperanças, para que as suas pernas se mantenham firmes e os seus joelhos não se dobrem no chão.


Os braços de Rita eram searas ao vento a balançar na felicidade da despreocupação. A partida chegara finalmente. Rita e Samuel tinham feito há muito as malas. Samuel não queria levar consigo quaisquer recordações do tempo passado em Londres. Rita, por sua vez, pretendia coleccionar todos os momentos desde o primeiro dia, pois, para si, esta era a aventura que tinha vindo procurar. A partida para Londres tinha sido um crescendo no seu concerto a solo. Depois de imenso tempo, Rita conseguiu assumir-se como solista da sua vida. Cada passo que deu fê-la crescer e alcançar os passos dos Deuses. Um músico sabe que a música pertence aos Deuses, tal como o amor, a poesia e a pintura. Agora, no lugar alcançado, Rita era solista, mas aprendera a partilhar o palco. Tudo se tornou mais fácil quando percebeu que os solistas são estrelas e as estrelas, ainda que dispersas, são muitas e brilham em conjunto. Quando o brilho de Samuel começou a desaparecer e todos os seus dias se tornaram baços, Rita percebeu que era a sua vez de retribuir aquele momento em que, naquela praia, Samuel a ancorou à terra, não a deixando ser apenas uma gota no oceano.

Partiram para regressar. O gosto do regresso era reconfortante como uma lareira acesa no Inverno frio.

Agora, a eternidade pertencia-lhes porque eram donos dos sonhos. Dormiam com os olhos abertos voltados para o céu e depositavam fantasias nas nuvens.




Tomás agarrou na fotografia com as mãos e pousou-a no colo. Os olhos começaram a largar lágrimas e, pouco depois, levou as mãos ao rosto para limpar as lágrimas que começaram a escorrer com maior velocidade.

Carregava a dor no peito e cada inspiração era só mais uma pá de terra que o fazia sentir-se soterrado. Dentro de si, o ar sufocava como se as cordas vocais fossem uma autoestrada no deserto e os pulmões um cemitério de sonhos. No seu peito sentia o peso da terra árida que lhe serviria de sepultura.

Pousou a foto na mesa ao lado da sua cama e o seu olhar passou pelo portátil aberto e pelas páginas que tinha escrito. Os olhos encheram-se de novo de lágrimas, desta vez com a força natural de uma tempestade que chega sem aviso e leva tudo à sua frente.

Queria dar-lhe um final feliz, uma história de protagonista, um romance com esperança, não um ponto final numa nota de rodapé num noticiário: “Homem morre afogado ao tentar salvar jovem de afogamento.”

Porque raio te foste atirar ao mar, Rita? Porque raio foi ele levado e não tu?

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Gás Hélio - Um conto sobre acolhimento e cura, e a periferia

Foi nomeado pela paixão do pai e fonte de sustento da família, desde antes dele fazer parte da mesma: Hélio.

Seu pai, Airton, era vendedor de balões ou bexigas infladas por gás hélio, aqueles bólidos flutuantes em forma de peixe, escudo do flamengo ou cabeça do Mickey.

Aluno destaque do sexto ano do CIEP 051 Municipalizado Anita Garibaldi, em São Gonçalo/RJ, Helinho nutria carinho todo especial pelos balões que ajudaram a nomeá-lo e a provê-lo. O menino auxiliava o pai nos enchimentos e montagens, e sempre que podia era levado aos pontos de venda: Rotineiramente o Campo de São Bento, em Niterói, ou eventos sazonais, um aniversário de Itaboraí aqui, um feriado de São Gonçalo acolá, um festival de pipas em Maricá, por trás-os-montes. O menino já conhecia toda a Região Metropolitana do Estado do Rio.

O mesmo não ocorrera com seu predecessor em chegada na família, Heitor, irmão mais velho. Aliciado no portão de casa, ponto de revenda de drogas no depauperado bairro Jardim Catarina, cedo tomou o caminho da marginalidade.

Morreu no dia primeiro do segundo ano de carreira, a 200 metros do portão da casa do “seu Airton do Gás”; seu portão, seu pai.

Baque no sonhador Helinho, bordoada de moer menino tenro. Notas decaíram, participação nas aulas, na igreja. Seu sangue e companheiro de pelada no quintal, seu parceiro de PlayStation, seu incentivador nas paqueras, seu torto herói se fora.

Na velha coleção de biografias achada por seu pai no lixo, nas portas de um grande edifício, ao chegar pela manhazinha lá no niteroiense Campo de São Bento, Helinho mergulhava sua solidão. Numa das biografias, a do padre brasileiro Bartolomeu Lourenço de Gusmão, nosso primeiro inventor e pai do balão a ar quente, um estalo.

Inspirado numa prática de produção textual que aprendera na escola, o aluno destaque do Anita Garibaldi passou a escrever cartas; primeiro para si mesmo, refletindo sobre sua perda. Logo as endereçava a seu irmão. Por fim, o salto humanitário, digno de um Gusmão, uma Anita: Helinho passou escrever ternas mensagens para pessoas que tivessem perdido alguém, tal como ele perdera. E assim surgiram “Carta a uma mãe que perdeu um filho”, “Carta à criança que perdeu a avó”, “Carta a quem perdeu um irmão”. Contando brevemente sua história, Hélio contextualizava sua mensagem para diversos leitores em potencial.

Um belo dia, tendo imprimido uma quantidade de cópias de cada cartinha, Helinho as atou a balões inflados de hélio – não os artísticos balões vendidos pelo pai, mas a modelos simples, como as bexigas de festa de aniversário – e, subindo para a laje de sua humilde casa, soltou os balões, vagões de sonho lotados de afeto, nos ares de sua São Gonçalo.

No primeiro dia foram 30. Quinze dias depois, o menino despachava mais 15. E assim, usando de suas economias, o menino adquiria os balões e inflava-os com os botijões de gás do pai, liberando suas mensagens pelo ar.

Em apenas três dias depois dos primeiros lançamentos, duas marcações no perfil do menino no Instagram apareceram. Pessoas curiosas, que encontraram uma das mensagens, nas quais constava também o endereço do menino, e seu perfil naquela rede social. Mas demorou 45 dias para chegarem as primeiras cartas. Cartas de papel, como as de Helinho. Uma mãe e uma irmã.

“Querido menino Hélio. Encontrei seu balão pendurado nos galhos de uma árvore em Alcântara. Era de manhazinha, eu ia pro meu trabalho nos Correios. Sua mensagem me fez chorar no ônibus, pois perdi minha mãe há seis meses. Ainda sofro. Mas acredito que Deus usou você para me mandar uma mensagem de conforto. Obrigado, meu filho. Não te conheço, mas você já conquistou uma amiga.”

A segunda carta – outras viriam – era de uma adolescente de 17 anos, Ágatha. Ela vira o balão do menino caído em seu quintal, de tarde, ao chegar do cursinho pré-vestibular. Com a mensagem em mãos, Ágatha entrou no quarto de seu irmão, deitou-se em sua cama e chorou. Mateus partira ia pra um ano.

“Oie!

Me chamo Ágatha, sou moradora aqui do Vila Três, em São Gonçalo também. Cara, sua cartinha chegou a mim, bem no meu quintal! Eu perdi meu irmão assim como você. Meus sentimentos por sua perda.

Sua mensagem me trouxe uma alegria que não sei expressar; era como um recado de meu irmão, dizendo para mim e minha mãe sermos fortes, que ele está bem.

Precisei escrever para você. Ia mandar mensagem no privado em seu perfil, mas resolvi escrever uma carta, assim como você. Minha primeira carta. Nem sei como enviar! Mas vou no correio me informar.

Estou escrevendo essa carta na cama de meu irmão. Minha mãe doou as coisas dele, roupas e tals, mas deixou a cama como estava. Pra lembrar dele, sabe? Mas não sei se isso é saudável, pra nós duas. Pois ambas choramos muito nesta cama. Já a peguei de madrugada ajoelhada aos pés da cama dele, chorando sozinha, e dizendo ‘onde foi que eu errei?’ Mas somos tantas famílias nessa situação…

Hélio, venho agradecer seu gesto, sua forma de ajudar as pessoas. Você é um anjo que, não tendo asas, criou as suas com palavras e bexigas de gás. Obrigado obrigado obrigadooooo!”

Voa, Helinho. Voa e trabalha, que faltam anjos no mundo, e os que desistem, no lugar de uma segunda chance, são mortos a bala.

Sammis Reachers

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porfavordigameunome
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longa espera

São quase três da tarde e me vejo na fila da clínica, pensando em você e na minha poesia. Penso em fugir e nunca mais voltar. Mas que sentido isso teria, sem você nas minhas mãos tocar?

Me pego esperando.

A fila já andou um pouco, mas meu coração continua inquieto.

Por onde andarás? - pergunta besta -

Eu sei exatamente onde estarás. Atrás de uma porta, sentado frente à um computador. Trabalhando.

A fila anda mais um pouco e me lembro da minha infância. Uma mulher logo ali, me conheceu quando eu era criança.

“Muito arteira e muito trabalho ela deu” - deve pensar -

E certa ela estará.

…. a fila não andou agora.

Ou fui eu que me perdi nessa transição?

De um passo-ao-outro, sem interpretação.

Só a minha mente a divagar, por entre histórias e memórias…

de onde eu vim e para onde fui parar.

Uma ou duas ou três horas seguidas, sem um propósito definido e sem um rumo à ser seguido.

A fila andou novamente. Já era tempo de algo mudar.

Ou só para fazer a minha mente se calar.

chega.

Não quero mais… delirar.

Muito menos me machucar. E por isso resolvo acordar.

E a fila? Aonde foi parar?

- Nunca esteve ali realmente - me respondi.

Não agora pelo menos.

Tô cansada dessa clínica. Tô cansada dos meus delírios.

- São os medicamentos - eu minto pra mim e me conformo que seja o suficiente.

duas, três, quatro ou cinco da tarde. E eu dou voltas nesses ponteiros do relógio na parede do meu quarto. Já estou aqui há tanto tempo. Ninguém vem me visitar.

Ou eles vem enquanto eu durmo, não sei.

É difícil explicar.

E quanto tento,

Já esqueci.

Quantas horas já se passaram enquanto estive aqui?

Até lembro de uma vez encontrar flores na beira da minha cama.

Jasmim.

Não, espera.

Lavanda.

Sim, Lavanda.

Acho que alguém de mim sentiu pena e assim as deixou ali.

“Pobrezinha, ninguém nunca vem visitar ela” - Pois penso que sim. Mas nunca confio o suficiente em mim.

Sabe, quando se vive assim,

dentro da loucura e dos delírios,

é difícil saber se as flores eram mesmo jasmim ou lavanda.

Ou se realmente eram para mim.

Escrevo na parede do quarto, porque me recusam papéis. E até prefiro que assim seja. Porque pelo menos assim, você não se sente tão só.

Não é mesmo?

Há muito tempo eu me fui.

Daqui mesmo de onde você está.

Durma tranquilo.

Não espere visitas.

Elas não virão.

Deite-se no colchão e espere apenas

pelos ramos de Jasmim.

- ou Lavanda -

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meninajasmim
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Na casa dos meus avós

Sempre me julguei ser uma pessoa forte, alguém que não saía do eixo com facilidade, sempre colocando seus sentimentos e emoções no lugar. Levando em conta como eu havia crescido, era curioso como havia me tornado assim. 

Esse pensamento voltou a minha mente quando abri as portas dos fundos da casa da família, naquela cidade com mais cara de vilarejo do que a cidade de porte médio que de fato era. 

A porta dava para uma sala de jantar apertada pela imensa quantidade de móveis, bibelôs e porta-retratos. As cortinas estavam entreabertas e os sonolentos raios da manhã entravam sorrateiramente, iluminando de forma preguiçosa o lugar. Tudo estava como antes, mas algo pesava ali. A quietude.

Caminhei sem pressa pelo lugar, deixando minha mente e meu corpo se acostumarem novamente com cada espacinho. Eu podia lembrar de quando minhas pernas ainda eram muito curtas e meu corpinho era tão leve que vovô podia me erguer só com um braço, pendurando-me ao lado de seu corpo e me carregando para lá e para cá. 

Passei pelo corredor verde-escuro, os retratos pendurados na parede, filhos, netos, sobrinhos, bisnetos, pessoas do passado. Fotos de viagens, fotos de casamentos, fotos de formaturas e natais em família. 

Entrei na cozinha e me sentei na velha cadeira que havia sido minha companheira por anos. O lugar onde eu podia observar e aprender. Se eu fechasse os olhos, conseguia ainda ver vovó indo de um lado para o outro, descascando suas batatas, picando seus legumes. Mesmo há anos ninguém cozinhando ali, ainda havia o cheiro de açafrão da paella que eu tanto adorava.

“Fiz seu prato favorito” ela falava sempre que eu ia visitá-la. Ela não sabia que qualquer coisa que ela cozinhava era meu prato favorito. 

Estiquei o braço e liguei o radinho de pilha sobre a mesa. Ainda funcionava. Deixei sintonizado em uma rádio que tocava uma das músicas mais pedidas do momento, o volume tão baixo que parecia um sussurro. 

Sempre que vovô via que eu havia ligado o rádio, ele me puxava pelas mãos e me levava em uma dança completamente destoante de qualquer coisa que estivesse tocando, me fazendo rir como só ele conseguia. 

Entrei no corredor que dava para a sala de estar e para a escadinha que subia para os quartos. Abri as janelas da sala para que ventilasse, o ar parado deixava tudo mais pesado, voltando a realidade de que o tempo havia parado naquela casa. Tempo demais, que eu fingia que não havia passado para não me confrontar com as coisas que sentia. 

Subi para o primeiro andar e entrei no quarto dos meus avós. A velha televisão de tubo ainda estava lá, uma relíquia de antes mesmo de eu nascer. O guarda-roupa de madeira com as portas sem conseguir fechar pela quantidade de coisas que guardava, na maioria das vezes, coisas dos netos e enfeites para as comemorações. 

Deitei-me sobre a colcha de retalhos áspera de poeira e encarei o teto. A luminária em formato de flor. A janela de folhas avermelhadas. A saudade que segurava meu coração com força em sua mão e o apertava causando aquele incomodo que me seguia há muito tempo. 

Tempo demais, falei em voz alta, esperando escutar a voz do vovô me perguntando se eu estava falando sozinha de novo ou com algum fantasma. 

Se eu pudesse, eu iria querer falar com seu fantasma. Mas estava sozinha ali naquela casa que falava muito mais do que eu estava preparada para ouvir. Com as lembranças que pensei que não me machucariam tanto depois de tantos anos. 

O que eu queria era sair dali, fechar todas as janelas e portas e deixar a casa congelada no tempo como havia ficado naqueles anos. Talvez eu pudesse voltar algum dia e sentir a mesma dor que sentia naquele momento, a dor de que as coisas não voltariam a ser como antes. Que pessoas morrem e que quem vive precisa aprender a lidar com aquilo, de uma forma ou de outra. 

Mas aquilo não seria honrar a memória dos meus avós, da minha família. Eles sempre disseram que queriam que eu crescesse ali, que teria espaço para meus filhos, para quantos animais eu quisesse ter. 

Respirei fundo. Era por isso que eu estava naquela casa, encarando o que poderia ser meu futuro, mesmo que tão preso ao passado. 

Sentei-me sobre a cama, as pernas cruzadas como se eu ainda fosse a mesma criancinha de sempre. O mesmo peso da lembrança e do luto sobre meus ombros. A mesma dor misturado ao sabor agridoce das memórias.

Talvez eles tivessem razão. 

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O Cadáver

Por meses, eu assisti Nalu definhar na minha frente todas as manhãs, todas as tardes e todas as noites. Foi um processo lento e gradual, que me entorpeceu e treinou em mim uma certa apatia por seu sofrimento. Insensível, não senti nada quando ela se foi por completo, nada mesmo. Talvez eu estivesse, passivamente, em negação; a morte mexe com as pessoas.

Pelas minhas contas, ela morreu há cinco meses e, ainda assim, eu entrei oficialmente de luto semana passada. Às quinze horas da segunda, eu acordei de ressaca e percebi que ela não estava mais aqui. Seja para me preparar um café com leite, comprar aspirina ou dizer que foi só uma recaída, ela não está mais aqui. E isso acabou comigo, porque não lembro da última vez que ela fez alguma dessas coisas.

Chorar no banho parecia a coisa certa a se fazer depois da monstruosa percepção. Enquanto meu corpo nu era ungido por minhas lágrimas e pela água mal tratada do chuveiro, avistei o xampu e o condicionador caros de Nalu, que ela só usava uma vez por semana. Despejei um pouco do primeiro na mão e comecei a massagear meu couro cabeludo, na esperança de que meu cabelo se transformasse nas suas mechas um dia macias. Em vez disso, meus fios não paravam de se enroscar na minha mão e cair da minha cabeça. Tive vontade de arrancá-los todos de uma vez, mas sei que ela odiaria isso: houve uma época em que ela cortava o meu cabelo para economizar no salão.

Desliguei a água e confiei apenas nas lágrimas para limpar os meus pesares de mim. Mas, conforme o meu choro cessou, sua trilha secou pelo meu corpo, aprisionando para sempre a culpa em minha pele. Até tentei esfregar com uma bucha vegetal largada a meses na prateleira do box, mas ela provavelmente só me deu uma micose. Tudo continuava lá.

“Se eu realmente tivesse me esforçado para parar de beber, ela ainda estaria aqui” estampado na bochecha direita, seguido por “ou se eu nunca tivesse começado a beber” na esquerda.

“Se eu tivesse só olhado nos olhos dela a tempo, eu teria visto sua alma indo embora” decorava minha clavícula.

“Quem” entre meus seios.

“você” no topo do abdômen.

“quer” na altura da cintura.

“enganar?” logo abaixo do meu umbigo.

E espalhado pelas minhas pernas: “Você foi incapaz de impedir”.

Não consegui formular uma resposta, por mais que me esforçasse. Então, dei três gritos, altos e feios, até a vizinha de baixo interfonar preocupada com meu estado mental.

Na falta do que fazer, abri uma garrafa de vodka. Era o único jeito de esquecer.

Só que hoje eu lembrei. Chorei novamente, dessa vez sentada no chão da cozinha. Me assustei com uma aranha e dei um grito; todavia, dessa vez eu não consegui parar. Eles vinham cada vez mais altos e cada vez mais feios, numa voz que eu não reconhecia como minha ou de ninguém.

Depois de incontáveis toques do interfone, batidas na porta e possivelmente uma denúncia à polícia, eu recuperei o controle de minhas cordas vocais e parei. Mas não para me explicar à vizinhança — até porque não acho que entenderiam —, mas porque percebi que os gritos não iam calar as vozes da minha cabeça. Eles vão no máximo me calar, me deixando rouca por dois dias ou três.

Para que o sofrimento possa ir embora, ele deve ter forma: um corpo próprio, capaz de se deslocar para longe de mim e dos meus inocentes vizinhos. Então, decidi eu mesma transformá-lo em matéria. Foi aqui que eu peguei uma caneta e um caderno velhos e comecei a escrever. Quando acabar, eu vou fazer um avião de papel e jogá-lo pela janela.

Já não sei mais o que escrever — o que me aborrece, pois Nalu saberia. Tento relembrar a sua voz, para que seus pensamentos derramados voltem para me inspirar. Eu lembro que ela às vezes me irritava, então talvez fosse estridente. Nunca ninguém reclamou, então não sei. Lembro de suas palavras, mas elas parecem sem sentido agora. Repito-as baixinho em diferentes tons, em uma tentativa de recriar o dela, mas minha garganta machucada dificulta significativamente o processo.

Conforme os meus esforços se provam cada vez mais inúteis, voltam as batidas em minha porta.

— Polícia Militar, abra porta.

Não abro, sigo escrevendo. Posso ouvir, também abafado pela porta, os murmúrios dos meus vizinhos.

A porta é derrubada por um dos PM’s, o estrondo que me fez borrar a última frase.

— Este é o apartamento de Ana Luiza Duarte Fonseca?

— Sim.

— Onde ela está?

— Morta. — Os meus vizinhos, reunidos atrás dos policiais, fazem uma careta coletiva. Eu sabia que não entenderiam.

— E você, quem é? — Perguntou enquanto me apontava sua pistola.

— O cadáver.

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O Trigo da Honra: Crónicas da Benfeitoria

De acordo com o Livro da Virtuosa Benfeitoria do Infante D. Pedro de Avis, 1.º Duque de Coimbra

Prólogo

Naquele inverno em que os ventos pareciam soprar de todos os cantos do mundo contra um só homem, o Infante D. Pedro atravessava as planícies estrangeiras como quem caminha sobre a própria memória. Já não era apenas o irmão do rei, nem o regente deposto, nem o príncipe viajante que outrora aprendera latim nas cortes e humildade nos mosteiros. Era, sobretudo, um homem em desterro — não apenas da sua terra, mas do tempo em que acreditara que a virtude bastaria para governar os homens.

As cidades por onde passava acolhiam-no com a cortesia que se reserva aos nomes ilustres caídos em desgraça: portas abertas, mas corações fechados; pão quente, mas silêncio frio. Em Bruges, em Florença, em Viena, os sinos soavam como se marcassem não as horas, mas as perdas. Cada badalada era uma lembrança do que fora e já não podia ser. Cada rua estreita parecia conduzi-lo não ao futuro, mas ao peso do passado.

Caminhava com poucos. Entre eles seguia Nuno, jovem escudeiro de olhos atentos, que carregava mais perguntas do que armas e mais inquietação do que certezas. Fora-lhe confiado como quem entrega um vaso ainda por cozer: frágil, mas cheio de promessa. D. Pedro via nele o reflexo de si mesmo quando partira, anos antes, para conhecer o mundo — e sentia, nesse espelho, o amargo daquilo que aprendera tarde demais.

Nas estalagens, à luz vacilante do fogo, o Infante escrevia. Não tratados para os doutos, nem cartas para os poderosos, mas sentenças breves, nascidas da experiência e não da glória. Chamava-lhes Bemfeitoria, não como quem ergue um monumento, mas como quem semeia trigo num campo que talvez nunca venha a colher. “Porque o bem,” murmurava, “não se mede pela resposta, mas pela necessidade.”

O mundo que deixara para trás tornara-se um rumor distante. Em Portugal, os salões fervilhavam de intrigas, e os que outrora lhe juraram lealdade agora aprendiam a esquecer o seu nome com rapidez exemplar. D. Pedro aceitava esse esquecimento como se aceita a chuva: não por resignação, mas por lucidez. Sabia que os homens preferem a vantagem à memória, e que a gratidão, quando não é cuidada, seca como espiga ao sol.

Nuno observava-o em silêncio, como quem tenta decifrar uma língua antiga. Um dia, enquanto cruzavam um vale coberto de neblina, ousou perguntar:

— Senhor, por que continuais a falar de justiça, quando ela vos foi negada?

D. Pedro deteve-se. Olhou a paisagem como quem olha um campo antes da sementeira.

— Porque se eu deixar de acreditar nela, não serei exilado apenas do reino, mas de mim mesmo.

E retomou a marcha.

Assim começava a sua última viagem — não para reconquistar tronos, mas para salvar aquilo que nenhum poder pode devolver: a honra que nasce do bem feito em silêncio. No coração do desterro, D. Pedro preparava a sua colheita final, certo de que o trigo da honra cresce mesmo em terras onde já não se espera primavera.

Capítulo I – A Semente do Bem

O dia nascera envolto numa luz incerta, como se o próprio sol hesitasse em atravessar as nuvens que se estendiam sobre a planície. A estrada de terra ainda guardava a humidade da noite, e cada passo levantava um leve cheiro a barro fresco. D. Pedro avançava com passo firme, apesar do cansaço que lhe pesava nos ombros como um manto invisível. Não caminhava apenas por aquele caminho estrangeiro: caminhava através de lembranças, de perdas, de promessas que o tempo se encarregara de dobrar sem as quebrar por completo.

Atrás dele seguia Nuno, o jovem escudeiro que lhe fora confiado antes do exílio se tornar definitivo. Trazia nos olhos um brilho inquieto, próprio de quem ainda acredita que o mundo pode ser moldado pela força da vontade. A espada à cinta parecia-lhe mais pesada do que nos primeiros dias de viagem, não pelo peso do ferro, mas pelo peso das perguntas que começavam a germinar em silêncio.

Durante horas caminharam sem falar. O vento atravessava os campos adormecidos, ondulando a erva curta como se o solo respirasse. D. Pedro parou junto a um marco de pedra, gasto pelo tempo, e pousou a mão sobre ele, como quem procura apoio não na matéria, mas no símbolo.

— Vês este marco? — perguntou, sem olhar para Nuno. — Foi colocado para indicar um limite. Mas ninguém sabe já quem o ergueu, nem porquê. Ainda assim, continua a cumprir o seu ofício.

Nuno aproximou-se, tocando na pedra fria.

— Porque permanece — respondeu.

D. Pedro sorriu, quase impercetivelmente.

— Porque foi feito com intenção. É assim também o bem.

Retomaram a marcha até que, já perto do meio-dia, avistaram um pequeno povoado. Casas baixas, paredes caiadas, telhados de colmo. Um poço ao centro e, junto dele, uma figueira de ramos nus, como uma velha que perdera a voz mas não a memória. As pessoas interromperam os seus afazeres ao vê-los chegar. Não reconheceram o nome do Infante, mas sentiram-lhe o peso no porte e no silêncio.

Uma mulher aproximou-se, trazendo ao colo uma criança magra, de olhos demasiado grandes para o rosto. Não pediu nada. Limitou-se a inclinar-se, como se a própria postura fosse já uma súplica.

Nuno sentiu o coração apertar-se. Metera a mão na bolsa e encontrou uma pequena moeda de cobre, escurecida pelo uso. Estendeu-a depressa, quase com impaciência, como se quisesse livrar-se daquela sensação que lhe queimava o peito.

A mulher agradeceu com um aceno tímido e afastou-se.

Seguiram caminho. Só depois de deixarem o povoado para trás é que D. Pedro falou:

— Que sentiste ao dar-lhe a moeda?

Nuno pensou por instantes.

— Alívio, senhor. E dever cumprido.

D. Pedro parou. À sua frente estendia-se um campo recém-lavrado, a terra escura aberta em sulcos perfeitos.

— Observa este solo — disse. — A terra parece vazia, mas está cheia de promessas. O lavrador não lança a semente para ver o campo florir no mesmo dia. Confia no que não vê.

Nuno acompanhou-lhe o olhar.

— O bem — continuou — começa na intenção. A moeda é apenas o grão. Se a lançamos para aliviar a nossa consciência, não semeamos: despejamos.

O rapaz sentiu o rosto aquecer.

— Então errei?

— Erramos todos — respondeu o Infante. — A diferença está em aprender.

Mais adiante, encontraram um velho lavrador que tentava erguer uma cerca caída. A madeira estava partida, e os arames soltos deixavam passar o gado. D. Pedro aproximou-se sem dizer palavra e começou a ajudar. Nuno, surpreendido, imitou-o. Trabalharam lado a lado, mãos sujas de terra, enquanto o homem os observava com espanto.

— Não tenho como pagar-vos — murmurou o lavrador.

— Não nos deves nada — respondeu D. Pedro. — O campo paga por ti.

Quando partiram, Nuno sentia algo novo crescer dentro de si, como uma raiz invisível.

Ao entardecer, sentaram-se à beira do caminho. O céu tingia-se de dourado, e o vento trazia o cheiro distante das colheitas.

— Senhor — disse Nuno —, como sabemos se a semente é boa?

D. Pedro olhou-o com serenidade.

— Quando não esperas colheita, mas ainda assim semeias.

E assim, sob a luz do crepúsculo, começava a verdadeira jornada de Nuno: não apenas pelas estradas do mundo, mas pelos caminhos mais difíceis da própria consciência.

Capítulo II – A Arte de Dar

A cidade erguia-se diante deles como um mosaico vivo de pedra e vozes. Torres escuras recortavam o céu de primavera, e o rio, largo e lento, refletia o movimento incessante das barcaças carregadas de trigo, tecidos e sal. Para Nuno, que crescera entre campos pobres e caminhos de poeira, aquele lugar parecia um cofre aberto onde cada rua escondia um tesouro. Para D. Pedro, era apenas mais um espelho do mundo: abundante na superfície, faminto no fundo.

Entraram pelos portões ao romper da manhã. O ar trazia o cheiro de pão quente, de peixe seco e de metal. Mercadores gritavam preços, crianças corriam entre carroças, mendigos estendiam as mãos com a mesma insistência com que os sinos marcavam as horas. A cidade parecia ensinar, em cada esquina, a arte de tomar.

Nuno caminhava atento a tudo, os olhos presos às cores e aos gestos rápidos. Sentia-se pequeno naquele labirinto de pedra, mas também tentado pela promessa de que ali, talvez, se pudesse conquistar mais do que apenas sobreviver. D. Pedro, porém, avançava com passo contido, como quem sabe que cada riqueza traz consigo um peso invisível.

Na praça principal, sob a sombra de um arco antigo, reunia-se um grupo de pedintes. Um deles, homem de barba grisalha e olhar astuto, contava em voz alta a sua desgraça: perdera a casa, a família, a honra. Fazia-o com tal eloquência que os transeuntes paravam mais por curiosidade do que por piedade.

Nuno, comovido, retirou da bolsa uma moeda de prata — a mais valiosa que ainda guardava — e estendeu-a com firmeza.

O homem abriu um sorriso exagerado, fez uma vénia teatral e ergueu a moeda como um troféu, arrancando risos de alguns.

D. Pedro pousou a mão no ombro do escudeiro.

— O que viste nele? — perguntou.

— Um homem que sofre.

— Ou um homem que aprendeu a fazer do sofrimento um ofício.

Nuno sentiu-se desconcertado. Não pensara nisso.

Seguiram até aos jardins do antigo palácio. Entre fontes silenciosas e canteiros de rosas ainda por florir, a cidade parecia distante. D. Pedro caminhava com as mãos cruzadas atrás das costas, como se organizasse pensamentos antigos.

— A arte de dar — começou — não está em tirar de si, mas em reconhecer o outro. Há dádivas que humilham e palavras que libertam. Quando dás apenas para te veres refletido no agradecimento, não ofereces: negocias.

Nuno recordou a cena na praça e sentiu um leve peso no peito.

— Então nunca devo dar moedas?

— Deves dar o que não te faz sentir superior.

Ao entardecer, visitaram um hospital de peregrinos. O ar era denso, misto de ervas e doença. Homens e mulheres jaziam em leitos improvisados. Ali não havia encenação, apenas necessidade nua.

Um jovem monge conduziu-os. Nuno ajoelhou-se junto a um homem febril. Não lhe deu nada. Apenas segurou-lhe a mão. Pela primeira vez, compreendeu que o gesto era maior do que qualquer metal.

À saída, D. Pedro murmurou:

— Eis a arte de dar: oferecer sem ferir, sustentar sem prender, partir sem cobrar.

A cidade fechava-se na noite, mas no coração de Nuno abria-se um espaço novo, onde a generosidade deixava de ser ato para se tornar natureza.

Capítulo III – O Solo da Gratidão

A manhã erguia-se lenta, envolta numa névoa espessa que fazia das colinas sombras indecisas. O caminho serpenteava por entre vinhas ainda adormecidas, e o ar cheirava a terra húmida, como se a própria paisagem respirasse memórias antigas. D. Pedro avançava à frente, o manto pesado a ondular com o vento frio, enquanto Nuno o seguia, carregando nos ombros não só a bagagem, mas também o peso das lições que começavam a enraizar-se no seu espírito.

Desde a cidade, o jovem sentia-se diferente. As palavras sobre a arte de dar ecoavam-lhe no pensamento, como se cada passo fosse uma sílaba de um ensinamento maior. Contudo, nada o preparara para o que estava prestes a ver.

Ao longe surgiu a quinta de Martim de Azevedo, cercada por muros altos e torres de pedra. As vinhas alinhavam-se com rigor quase militar, e os celeiros, amplos e sólidos, anunciavam prosperidade. Era ali que residia um homem cuja história se contava em murmúrios: começara como aprendiz de moleiro e, graças a um senhor generoso, subira a patamares que poucos alcançavam.

Foram recebidos com cortesia medida. Criados conduziram-nos por corredores adornados com tapeçarias que exibiam cenas de colheitas abundantes e banquetes. Martim surgiu com passo confiante, anéis reluzentes nos dedos e um sorriso que parecia calculado.

— Infante — disse, inclinando-se apenas o necessário. — É honra recebê-lo sob o meu teto.

D. Pedro sustentou-lhe o olhar, como quem revê um campo já conhecido.

— Também tu já foste recebido assim — respondeu com suavidade. — Numa casa que não era tua.

Martim riu.

— Todos começam em algum lugar. O mérito está em não permanecer lá.

A frase pairou no ar como poeira.

Sentaram-se à mesa. Pratos fartos, vinho escuro, pão ainda quente. Tudo falava de abundância. Mas Nuno notou a frieza nos gestos dos criados, a distância no olhar do anfitrião, como se a riqueza tivesse endurecido o ambiente.

Após a refeição, D. Pedro pediu para ver os campos. Caminharam entre vinhas carregadas, celeiros cheios e lagares onde o mosto ainda escorria. Martim falava de contratos, de rendas, de alianças vantajosas.

— Foste ajudado — disse o Infante, parando junto a um carvalho antigo. — Quem te estendeu a mão?

Martim encolheu os ombros.

— O mundo não se constrói sobre memórias, mas sobre resultados.

D. Pedro pousou a mão no tronco rugoso.

— Enganas-te. A gratidão é o solo onde a honra cria raiz. Sem ela, tudo se torna estéril.

Martim desviou o olhar, incomodado.

Nessa noite, Nuno não conseguiu dormir. Caminhou pelos corredores silenciosos até encontrar um velho servo junto à cozinha. Reconhecera D. Pedro. Contou-lhe, em sussurros, como Martim fora acolhido anos antes por um senhor benevolente, agora esquecido, deixado à miséria.

— O ouro fechou-lhe o coração — disse o velho.

Na manhã seguinte, partiram sem despedidas longas. Ao afastarem-se, D. Pedro disse:

— Quem esquece a origem, perde o direito ao futuro.

Nuno sentiu o peso da lição como terra nas mãos: não era o ouro que sustentava um homem, mas a memória do bem que o fizera crescer.

Capítulo IV – O Veneno do Esquecimento

O caminho tornara-se áspero, como se a própria terra quisesse provar a firmeza de quem a atravessava. As colinas suaves tinham ficado para trás; agora, rochedos irregulares e árvores retorcidas dominavam a paisagem. O vento soprava entre as fendas das pedras, produzindo um lamento contínuo que lembrava vozes antigas, presas ao chão. D. Pedro avançava em silêncio, o rosto fechado numa serenidade que não escondia a dor. Nuno seguia-o com passos mais lentos, sentindo que algo sombrio se aproximava, embora não soubesse dizer o quê.

Desde a visita à quinta de Martim, a palavra ingratidão adquirira para Nuno um peso novo. Já não era apenas um defeito moral, mas uma força corrosiva, capaz de transformar o coração em pedra. D. Pedro parecia ler-lhe os pensamentos, mas nada dizia. Às vezes, a lição precisava amadurecer no silêncio.

Ao entardecer, avistaram as ruínas de um mosteiro abandonado, erguido sobre colinas cinzentas. As paredes, cobertas de musgo, ainda guardavam vestígios de frescos quase apagados. Um sino partido jazia no pátio, como um coração arrancado ao corpo. Decidiram ali pernoitar, pois o céu ameaçava tempestade.

Enquanto acendiam uma pequena fogueira no antigo claustro, um vulto surgiu das sombras. Era um homem de meia-idade, magro, envolto em trapos, mas com gestos dignos. Aproximou-se devagar, temendo ser rejeitado.

— Não vos farei mal — disse. — Procuro apenas abrigo.

D. Pedro convidou-o a sentar-se. Chamava-se Lourenço. Outrora fora escriba na casa de um nobre poderoso. Durante anos copiara contratos, organizara arquivos, protegera segredos que poderiam ter arruinado aquela família. Quando a fortuna do senhor cresceu, Lourenço tornou-se dispensável. Foi afastado sem palavra, sem recompensa, sem memória.

— A fome é dura — murmurou. — Mas mais dura é a certeza de que fui apagado.

Nuno sentiu um aperto no peito. A história parecia um eco do que vira na quinta de Martim, mas aqui a ferida estava aberta.

D. Pedro falou com voz baixa:

— A ingratidão é o mais lento dos venenos. Não mata o corpo, mas dissolve a alma. Quem esquece o bem recebido rompe o fio que o liga à humanidade.

A tempestade rebentou durante a noite. O vento sacudia as paredes, e a chuva escorria como lágrimas sobre as pedras antigas. Nuno mal dormiu. Pensava em Lourenço, em Martim, e em quantos outros seriam engolidos pelo mesmo esquecimento.

Ao amanhecer, encontraram o lugar vazio. Lourenço partira antes do sol nascer. Restavam apenas as cinzas frias da fogueira.

Ao retomarem a estrada, D. Pedro disse:

— Há crimes que não deixam sangue, mas destroem mais do que a espada.

E Nuno compreendeu que esquecer não era ausência de memória, mas um ato deliberado — e o mais cruel de todos.

Capítulo V – A Escolha do Recetor

A estrada que atravessavam agora era mais estreita, flanqueada por muros baixos de pedra e vinhedos descuidados, e o ar tinha o cheiro terroso de uma primavera tardia. Cada passo ecoava no silêncio que se estendia entre D. Pedro e Nuno, um silêncio denso, cheio de expectativa. Nuno sentia que estavam prestes a entrar em território onde as lições não seriam simples, onde a bondade sem reflexão podia tornar-se armadilha.

D. Pedro, como sempre, caminhava alguns passos à frente, os olhos fixos na paisagem, mas atentos a cada movimento do jovem escudeiro. O Infante conhecia o coração humano melhor do que qualquer mapa ou livro: sabia que a virtude podia ser tanto semente fértil quanto veneno se semeada sem critério. Hoje, explicaria a Nuno a lição mais difícil de todas: que dar não é apenas ato de generosidade, mas também ato de sabedoria.

Chegaram a um vilarejo que se espalhava preguiçoso às margens de um rio estreito. Casas baixas, telhados de colmo, crianças brincando descalças no pó das ruas. A vida parecia simples, mas D. Pedro conhecia bem a verdade oculta: nem toda necessidade é digna de benefício, nem todo pedido sincero merece resposta.

Enquanto passavam, Nuno reparou numa pequena praça onde um homem idoso, vestido de roupas gastas, gesticulava pedindo ajuda. Estava visivelmente debilitado, mas os olhos, astutos e ligeiramente desdenhosos, examinavam os passantes com cálculo. Sem hesitar, Nuno aproximou-se e estendeu-lhe uma moeda, repetindo a ação mecânica que aprendera nas lições anteriores.

O homem agarrou a moeda e, em vez de agradecer, olhou Nuno com uma mistura de desdém e expectativa, como se agora o jovem estivesse obrigado a continuar dando, a manter o fluxo de presentes que alimentavam o seu conforto. Nuno recuou, confuso e perturbado. D. Pedro aproximou-se, silencioso, e colocou a mão no ombro do rapaz.

— Observa bem, Nuno — disse o Infante com calma, mas firmeza. — Nem todo o que estende a mão deseja receber para florescer. Há quem queira apenas consumir, sugar a bondade alheia sem intenção de crescer ou retribuir.

Nuno olhou para o homem, tentando compreender. — Mas ele está doente, senhor. Precisava…

— Precisava daquilo que tu deste? Talvez. Mas observa a forma como recebeu. A gratidão é a prova do solo. Se o terreno não a aceita, a semente perde-se.

Continuaram caminho até a casa de Dona Isabel, uma viúva idosa que vivia isolada no limite do vilarejo. As suas mãos eram calejadas, o corpo pequeno e frágil, mas os olhos brilhavam com uma lucidez rara. O Infante e Nuno foram recebidos com humildade genuína. Dona Isabel não pedia, mas aceitou com alegria qualquer ajuda oferecida, ajudando a própria comunidade com o que tinha.

D. Pedro sentou-se com Nuno à sombra de uma árvore, observando Dona Isabel a cuidar de algumas crianças órfãs da aldeia.

— Vês, Nuno? — começou. — Aqui, o benefício encontra solo fértil. A semente não é apenas recebida; é cultivada. Cada gesto teu cresce e multiplica-se, não apenas para ti, mas para toda a comunidade.

— Então devo escolher a quem dar? — perguntou Nuno, ainda inseguro.

— Sim — respondeu D. Pedro, olhando o horizonte. — Dar sem reflexão é como lançar sementes ao vento sem escolher a terra. Parte cairá em solo árido, e o esforço será perdido. Parte será pisada. Parte poderá até gerar frutos nocivos. A sabedoria do dom está na escolha do recetor, no discernimento do coração que acolhe a tua generosidade.

O resto do dia passou-se em visitas e observações. Nuno acompanhava o Infante enquanto este analisava com atenção cada situação: crianças que pediam por curiosidade, aldeões que se aproximavam por hábito, pedintes que manipulavam emoções para obter vantagem. D. Pedro explicava, apontando detalhes que Nuno inicialmente ignorava: o brilho nos olhos, a hesitação nas palavras, a forma como cada pessoa respondia sem saber que estava sendo observada.

Ao entardecer, sentaram-se à beira de um pequeno riacho, o reflexo da luz do pôr do sol brincando nas águas calmas.

— Nuno — disse D. Pedro —, dar não é apenas aliviar sofrimento. Dar é construir. Escolher bem é preservar a bondade de quem oferece, para que não se desgaste em vão. Uma mão que se estende sem critério corre o risco de se tornar amarga. A generosidade sem discernimento é um veneno lento.

Nuno olhou para o riacho, sentindo o peso das palavras. Começou a perceber que cada ato de bondade carregava consigo responsabilidade, que a gratidão alheia era mais do que mero gesto: era sinal de que a semente poderia criar raízes.

No regresso à estalagem, passaram por um jovem camponês, magro, com os olhos baixos e mãos sujas de trabalho. Pediu ajuda para reparar a roda quebrada de uma carroça. Nuno, agora mais atento, consultou D. Pedro com um olhar interrogativo.

— Este — disse o Infante — é um bom solo. Ajuda-o. Mas observa: o gesto não deve ser feito para que te agradeça. Fazes-no porque é teu dever reconhecer o esforço e a honestidade. O benefício não depende da resposta, mas da sinceridade do coração que oferece.

Trabalharam juntos para consertar a roda. Nuno sentiu, pela primeira vez, a diferença entre dar por hábito, por medo ou obrigação, e dar com intenção. O camponês sorriu, agradecido sem subserviência, e ofereceu-lhes pão e queijo do próprio magro celeiro. Era um gesto simples, mas genuíno, que iluminou algo em Nuno que ele ainda não sabia nomear.

Quando o sol desapareceu atrás das colinas, D. Pedro e Nuno retomaram a estrada. O Infante falou, quebrando o silêncio do crepúsculo:

— Lembra-te, Nuno. O valor de dar não está naquilo que se entrega, mas na alma de quem estende a mão. A verdadeira arte da generosidade exige discernimento, paciência e coragem. Se apenas lançamos sementes ao vento sem pensar no solo, teremos feito pouco mais que ruído. Mas se escolhemos com cuidado, cada gesto pode germinar e transformar não apenas a vida do outro, mas também a nossa.

Nuno sentiu o coração aquecer com aquela lição. Pela primeira vez, compreendeu que generosidade não era apenas ato físico ou moral: era filosofia viva, construída passo a passo, escolha a escolha, gesto a gesto.

A noite caiu, silenciosa e profunda, cobrindo a estrada com o manto da escuridão. Enquanto caminhavam, Nuno sentiu-se mais leve e, ao mesmo tempo, mais consciente do peso que carregaria em cada ato futuro. Aprendera que a arte de dar não reside na pressa, na visibilidade ou na moeda oferecida: reside na intenção pura e na escolha sábia de quem acolhe o dom.

O Infante caminhava à frente, a silhueta recortada pela luz da lua, e Nuno, agora em silêncio reflexivo, percebeu que aquela viagem não seria apenas de terras distantes, mas uma jornada profunda pelo coração humano — onde cada gesto de bondade deveria encontrar solo fértil para germinar, ou então se perderia na aridez da ingratidão.

E assim, ao final daquele dia, Nuno compreendeu pela primeira vez o verdadeiro peso da palavra “dar”: que não basta estender a mão; é preciso escolher o solo, reconhecer a terra e, sobretudo, respeitar o ritmo do crescimento do outro. Só assim a semente do bem poderia florescer de verdade.


Capítulo VI – O Tempo das Mãos

O amanhecer encontrou D. Pedro e Nuno junto a um caminho ladeado de olivais. A névoa fina da madrugada cobria o chão, tornando cada pedra e cada raiz indistinta, como se o mundo ainda hesitasse em despertar. O ar era fresco, cortante, mas trazia também o perfume das folhas húmidas e da terra remexida. O Infante caminhava à frente, mãos cruzadas atrás das costas, passo medido e olhar atento, como se cada detalhe da paisagem contasse uma história que Nuno ainda não sabia ouvir.

— Olha, Nuno — disse D. Pedro após um instante de silêncio —, tudo tem seu tempo. Até o bem que se faz.

O jovem escudeiro franziu o sobrolho. — Como assim, senhor? O bem não deve ser feito sempre que se vê necessidade?

— Ah, rapaz — respondeu o Infante com um sorriso contido —, o bem, se precipitado, pode ferir em vez de curar. Se tardio, deixa a ferida crescer. Dar no momento errado é como regar uma semente no inverno ou colher uma fruta ainda verde: a intenção existe, mas a utilidade escapa.

Seguiram até a beira de um pequeno vilarejo. Ao longe, uma criança chorava, sentada na soleira de uma casa. Nuno, com impulso juvenil, avançou para oferecer-lhe uma moeda que retirou da bolsa. D. Pedro segurou-lhe o braço com delicadeza, mas firmeza.

— Espera, Nuno. Observa primeiro.

O rapaz hesitou, desconcertado. O Infante inclinou-se e murmurou:

— O momento é tão importante quanto o gesto. Se ofereces agora, talvez interrompas algo que precisa amadurecer. Ou talvez despertes uma dependência prematura. Aprende a ler o tempo do outro, e não apenas o teu impulso.

Nuno observou, percebendo que a criança não chorava por fome, mas por cansaço, solidão e medo. A moeda poderia aliviar a dor momentânea, mas não curaria a raiz do sofrimento.

D. Pedro continuou: — Assim como a natureza tem ciclos — nascer, crescer, florescer, morrer —, também o coração humano tem ritmos que devemos respeitar. Dar fora de tempo é como colher flores antes que desabrochem: arrancas a beleza antes que se revele, e o bem perde-se.

Enquanto caminhavam, chegaram a uma pequena ponte de madeira sobre um riacho. Um homem tentava atravessá-la, carregando um fardo pesado. A tábua central rangeu sob o peso, e Nuno, impaciente, estendeu a mão para ajudá-lo imediatamente. D. Pedro inclinou a cabeça, estudando a situação.

— Observa, Nuno — disse —, quando ele aceitar a tua ajuda, quando ele confiar em ti, então será o tempo certo. Antes disso, a tua ação poderia envergonhá-lo ou fazê-lo perder a dignidade.

O homem tropeçou levemente, e Nuno quase saltou para segurá-lo. Mas o Infante segurou-lhe novamente o braço:

— A hora de agir nem sempre coincide com a tua urgência. O bom momento é reconhecido no respeito ao outro, e não na tua pressa em aliviar o teu próprio desconforto.

Nuno olhou o homem, que respirava com dificuldade, mas levantava-se com coragem. O rapaz compreendeu, pela primeira vez, que ajudar não é apenas estender a mão, mas esperar que a mão do outro esteja pronta para a receber.

Mais adiante, ao atravessarem campos de trigo dourado, encontraram um velho agricultor tentando carregar cestos pesados para o celeiro. A silhueta curvada, o esforço aparente, despertou em Nuno a vontade imediata de intervir. Mas D. Pedro disse apenas:

— Espera e observa. Cada um carrega o seu peso no tempo que lhe é próprio. Intervir antes de ser necessário pode desonrar o esforço, e o bem pode perder-se na soberba do ajudante.

O velho trabalhou sozinho alguns minutos, depois aceitou ajuda quando sentiu que precisava. Nuno percebeu a diferença: não havia imposição nem pressa. O gesto de auxílio era verdadeiro, porque respeitava o tempo do outro.

Ao final do dia, pararam à beira de um bosque. O sol já se punha, tingindo de ouro e carmesim as copas das árvores. Nuno sentou-se junto a uma árvore caída, cansado, mas absorvendo cada palavra do Infante.

— Senhor — disse —, às vezes sinto que posso agir com bondade e falhar, mesmo querendo acertar. Como saber quando é realmente a hora certa?

D. Pedro olhou para o horizonte, atento às sombras que cresciam entre as árvores.

— O tempo das mãos é lido pela observação e pela paciência. Não é pressa nem hesitação, mas compreensão do momento certo. Nem cedo demais, nem tarde demais. O bem feito na hora própria tem força de colheita; fora dela, pode ferir ou perder-se.

O jovem escudeiro refletiu sobre tudo o que aprendera até então: a arte de dar, o solo da gratidão, a necessidade de escolher bem o recetor. Agora compreendia que até o tempo era um ingrediente essencial da generosidade. A bondade, sem ritmo, sem medida, podia tornar-se inútil ou prejudicial.

Enquanto a noite caía, D. Pedro ergueu a mão e apontou para as estrelas que começavam a surgir no céu escuro.

— Observa o céu, Nuno. Cada estrela aparece no seu tempo, no seu lugar. Se aparecessem todas ao mesmo tempo, perderiam a beleza e a ordem. Assim é o bem que oferecemos: há momentos certos para cada gesto, e cabe a nós aprender a esperar, a perceber e a agir com sabedoria.

Nuno olhou as estrelas, sentindo uma calma profunda, e finalmente entendeu que a generosidade não é impulso, nem apenas virtude, mas disciplina: de olhos abertos, coração atento e mãos dispostas na hora certa.

E assim seguiram a viagem, o crepúsculo envolvendo-os como um manto silencioso. Nuno sentiu que crescera naquele dia. Aprendera que cada gesto carrega em si a responsabilidade de respeitar o tempo: nem cedo demais para ferir, nem tarde demais para deixar a ferida crescer. Compreendeu, finalmente, que a bondade, para ser verdadeira, exige paciência, observação e respeito pelo ritmo do outro — o tempo das mãos.

Capítulo VII – A Corte da Justiça

A viagem levava-os agora a terras mais densas, onde os muros de pedra se erguiam com majestade e o eco de passos perdidos nos corredores antigos parecia sussurrar histórias de poder e intriga. Ao longe, a silhueta de um castelo dominava a planície: torres altas, ameias recortadas e bandeiras que baloiçavam ao vento, anunciando não apenas a presença de um governante, mas também a autoridade de leis que se pretendiam eternas. D. Pedro caminhava à frente, firme, mas não impaciente. Cada pedra daquela estrada parecia contar-lhe segredos que o próprio poder, se não guiado pela justiça, poderia corromper.

Nuno observava tudo com fascínio e apreensão. Crescera ouvindo histórias de reis, regentes e nobres, mas nunca tivera oportunidade de ver a corte de perto. Agora, percebia que a verdadeira grandeza de um governante não estava na riqueza ou na pompa, mas na capacidade de equilibrar força e equidade. O Infante sabia disso melhor do que ninguém, pois experimentara, por seu próprio direito e também por erro alheio, a fragilidade do poder humano.

Ao entrarem pelo portão principal, foram recebidos por um séquito de criados e guardas. O castelo fervilhava de movimento: conselheiros discutiam em voz baixa, escribas corriam com pergaminhos, e nobres de vestes ricas cruzavam-se nos corredores com expressões de diplomacia ou cálculo. Para Nuno, era um cenário de opulência, mas D. Pedro via nele mais do que luxo; via os riscos da injustiça, as sementes da discórdia e os frutos da bondade ou da negligência.

Foram conduzidos a um salão amplo, onde tapeçarias contavam batalhas e vitórias passadas. D. Pedro sentou-se junto a Nuno numa das extremidades, observando o ambiente com atenção. Logo surgiram os conselheiros do regente local, cada um com suas demandas, reclamações e conselhos, todos procurando influenciar decisões com palavras habilidosas e, por vezes, interesseiras.

— Nuno — começou D. Pedro, sussurrando ao ouvido do rapaz —, observa. O benefício não é apenas dar moedas ou favores; é usar o poder para equilibrar justiça e necessidade. Um governante sábio aplica a benevolência de maneira que fortaleça a paz, e não apenas a aparência de bondade.

A primeira audiência foi com um comerciante, cujos pedidos pareciam justos à primeira vista. Queria permissão para expandir o mercado, mas D. Pedro reparou na forma como os comerciantes menores olhavam de soslaio, alguns com medo, outros com inveja.

— Senhor — disse o comerciante, confiante —, estas medidas garantirão prosperidade para todos.

D. Pedro inclinou-se ligeiramente, como se ponderasse não apenas as palavras, mas o espírito que as acompanhava.

— A prosperidade que se deseja deve considerar o chão onde nasce — respondeu com calma. — Nem sempre o que beneficia a muitos beneficia a todos de igual maneira. A justiça não é apenas dar; é garantir que o que se dá fortaleça a comunidade e não apenas o interesse de alguns.

O comerciante retirou-se com uma leve sombra de desaprovação no rosto, mas os pequenos mercadores respiraram aliviados. Nuno começou a compreender que, na corte, cada ação, cada favor, cada decisão tinha efeito multiplicador: podia semear gratidão, mas também ressentimento, ingratidão ou mesmo ódio.

A segunda audiência trouxe um homem de aparência humilde, acusado de um crime menor. O conselho queria puni-lo severamente para dar exemplo, mas D. Pedro analisou cuidadosamente o contexto. O crime fora fruto da necessidade e não da malícia.

— A punição sem reflexão é injustiça disfarçada de ordem — disse o Infante, observando Nuno com seriedade. — O benefício, aqui, é corrigir sem destruir, ensinar sem humilhar. O verdadeiro governante sabe que a misericórdia aplicada com discernimento sustenta a paz mais do que o aço da espada.

Enquanto caminhavam pelos corredores, após a audiência, D. Pedro continuou a sua lição:

— Cada decisão que tomamos diante de outros é uma semente. Se plantar vingança ou orgulho, colherá discórdia. Se plantar prudência e compreensão, colherá respeito e lealdade. Nunca te esqueças: o benefício não é apenas para o receptor imediato; ele estende raízes na sociedade inteira.

Mais tarde, Nuno observou um grupo de jovens nobres disputando favores e atenção, cada gesto uma prova de astúcia ou vaidade. O Infante explicou:

— Um governante deve distinguir entre quem busca o benefício para crescer e quem deseja apenas explorar. A generosidade mal aplicada gera dependência ou desrespeito, e a justiça verdadeira não se mede pelo prazer de dar, mas pelo efeito que o bem causado produz.

Ao anoitecer, na varanda do castelo, D. Pedro e Nuno contemplaram o vale iluminado pelo último sol. O ruído distante da cidade misturava-se ao som do vento entre árvores e torres. O Infante falou, olhando a paisagem:

— A corte é um espelho ampliado da vida. Cada gesto que fazemos, cada decisão, tem efeito em muitos, visível ou invisível. A arte do benefício aplicado à justiça não está apenas em agradar ou punir, mas em manter o equilíbrio, em preservar a paz e a dignidade de todos.

Nuno, pensativo, começou a entender o alcance daquela lição. Aprendera a dar com intenção, a escolher o recetor e a zelar pelas coisas que dependem dele, direta ou indiretamente. Quem aprende a dar com sabedoria e justiça constrói uma paz que nenhuma espada poderá destruir.

Nuno olhou para o Infante, percebendo que a lição da corte não era apenas sobre governar homens, mas sobre governar o próprio coração diante do poder. Compreendeu que cada decisão, por menor que parecesse, carregava o potencial de nutrir ou envenenar a comunidade inteira. Aprendera, finalmente, que o benefício aplicado com justiça é a ponte entre a autoridade e a honra, entre o dever e a humanidade.

Quando a noite desceu, cobrindo o castelo e o vale com um manto escuro, Nuno sentiu-se transformado. As palavras de D. Pedro não eram meros ensinamentos: eram sementes que começavam a germinar em seu espírito, ensinando-o que a justiça verdadeira, quando acompanhada de benefício sábio, é a base de qualquer sociedade que queira sobreviver e florescer.

Capítulo VIII – Espelhos de Séneca

O céu amanheceu cinzento, pesado, como se refletisse o peso das reflexões que D. Pedro carregava consigo. O vento soprava entre as árvores, trazendo consigo o cheiro da terra molhada e o aroma distante de ervas silvestres. O Infante caminhava lentamente pelo pátio do mosteiro onde haviam pernoitado, suas mãos cruzadas atrás das costas, e Nuno seguia, atento, como se cada gesto, cada pausa e cada suspiro de D. Pedro contivesse uma lição.

— Hoje, Nuno — disse o Infante, interrompendo o silêncio —, iremos conversar com os antigos mestres, embora apenas através das palavras e da reflexão. Não temas, pois os “espelhos” que veremos são sombras que refletem nossas ações e pensamentos.

O jovem escudeiro olhou confuso. — Senhor, como podem sombras ensinar-nos alguma coisa?

— Não são sombras quaisquer — respondeu D. Pedro, apontando para os corredores escuros do mosteiro —, mas ecos da sabedoria de Séneca, Cícero, Aristóteles. Cada reflexão sua é um espelho que nos obriga a encarar a nós mesmos. Hoje aprenderás a ver a tua própria alma através deles.

Sentaram-se numa sala ampla, iluminada apenas por velas trémulas, e o Infante começou a falar. Suas palavras eram pausadas, mas firmes, cada uma cuidadosamente medida.

— A virtude, Nuno, começa pelo reconhecimento de si mesmo. Séneca escreve que a alma que não se conhece é como um navio à deriva. Dar, beneficiar, escolher — tudo deve passar primeiro pelo exame interior. Quem se entrega à ação sem reflexão arrisca perder-se no caminho.

— Mas, senhor — perguntou Nuno —, se refletirmos demais, não corremos o risco de não agir?

— Sim, e é por isso que a reflexão deve equilibrar-se com a ação. O espelho não é para nos paralisar, mas para guiar-nos. Antes de estender a mão, antes de decidir, perguntamo-nos: este gesto honra a justiça? Cultiva a bondade? Não fere ninguém?

O Infante caminhou até uma estante repleta de pergaminhos e retirou um rolo antigo, amarelado pelo tempo.

— Este é um texto de Séneca — disse —, que fala sobre a importância de manter a consciência limpa e o coração justo. Observa: “Não é suficiente agir corretamente; é necessário que a intenção seja pura, e que a ação sirva não ao orgulho, mas ao bem maior.”

Nuno sentiu um calafrio. Aquelas palavras pareciam iluminar algo que ele ainda não compreendia totalmente: que cada ato de bondade ou de justiça era, antes de tudo, uma prova do próprio caráter.

D. Pedro continuou, com o olhar fixo no rapaz:

— Quando ofereces um benefício, não o faças esperando louvor ou reconhecimento. A mão que dá deve estar livre de vaidade; o coração que decide, livre de egoísmo. O espelho de Séneca não mente: mostra-nos aquilo que somos, e não o que gostaríamos de parecer.

Para ilustrar, o Infante contou uma história:

— Houve um mercador em Roma — começou —, que ajudava os pobres todos os dias, não por compaixão, mas para ostentar riqueza e virtude. Ao morrer, todos se lembravam dele apenas como um homem vaidoso, e nada do seu benefício perdurou. O bem verdadeiro, pelo contrário, é invisível, silencioso, e germina na alma de quem recebe e de quem dá.

Nuno compreendeu a lição de imediato. O gesto, sem intenção honesta, não é verdadeiro; a aparência não sustenta a virtude. Mas ainda não captava a profundidade do espelho: que a própria reflexão é também um ato de benefício, porque aperfeiçoa quem age.

D. Pedro ergueu-se e conduziu Nuno a um pequeno claustro, onde a luz da manhã iluminava o chão coberto de folhas secas.

— Agora, Nuno — disse ele —, quero que reflitas sobre ti mesmo. Pergunta-te: quando ajudo, é para aliviar a minha consciência ou para fortalecer o outro? Quando falo de justiça, é para corrigir ou para dominar? O espelho não tolera mentiras.

Nuno sentou-se, sentindo o peso da responsabilidade. Por um momento, fechou os olhos e lembrou-se de cada gesto que fizera até então: a moeda entregue apressadamente, a ajuda oferecida sem esperar, a atenção dividida entre impulso e reflexão. Cada memória parecia agora refletida em cristal, clara e implacável.

— Senhor — murmurou —, percebo que o benefício, a generosidade, até mesmo a justiça, são provas constantes da nossa alma. Se falharmos na intenção, tudo se perde, mesmo que o gesto pareça correto.

— Exato — disse D. Pedro com um sorriso breve. — O espelho de Séneca não se engana. Mas lembra-te também: não se trata apenas de escrutinar a alma; é aprender a alinhar ação e intenção. A bondade que não respeita o outro, a justiça que ignora a humanidade do próximo, tudo se corrompe.

Passaram o dia percorrendo os corredores silenciosos do mosteiro, discutindo dilemas morais, situações de injustiça e exemplos históricos. Cada diálogo era como um reflexo de uma decisão futura, um exercício de antecipação e discernimento. D. Pedro apresentava cenários: um agricultor que pede ajuda para salvar a colheita, um jovem que comete um erro por ignorância, um mercador que tenta enganar os mais pobres. E de cada vez, Nuno precisava de refletir, escolher e justificar sua decisão, sempre com o Infante como espelho, questionando, corrigindo e guiando.

— Vês, Nuno — dizia D. Pedro —, a vida real é composta de escolhas complexas. O benefício aplicado sem reflexão pode ferir. O mesmo gesto, dado a tempo e com intenção pura, transforma e enraíza a virtude. O espelho de Séneca mostra-te a diferença entre ação e resultado, entre aparência e essência.

Ao cair da noite, sentaram-se no claustro, observando a lua refletir-se nas pequenas poças formadas pela chuva.

— Hoje aprendeste — concluiu o Infante —, que o maior mestre não é apenas aquele que ensina, mas o que nos obriga a olhar para dentro de nós mesmos. Cada decisão, cada gesto de bondade, cada palavra justa, será medido pelo espelho que carregamos no coração. Se fores honesto com ele, o bem germinará; se o enganares, tudo se perderá.

Nuno sentiu-se esgotado, mas mais desperto do que nunca. Pela primeira vez, compreendeu que o verdadeiro conhecimento não estava apenas nos ensinamentos externos, mas na capacidade de enfrentar a própria consciência. Que cada gesto, cada escolha, era uma oportunidade de refletir quem ele realmente era — e quem queria tornar-se.

Enquanto adormeciam sob o teto de madeira antigo do mosteiro, Nuno percebeu que aquela viagem com D. Pedro não era apenas atravessar terras distantes, mas uma jornada contínua de autoexame, uma preparação para exercer a generosidade e a justiça com sabedoria, discernimento e respeito pela humanidade do outro. O espelho de Séneca havia sido apresentado: agora cabia-lhe refletir a sua própria alma nele.

Capítulo IX – O Benefício Oculto

A manhã nasceu suave, com uma brisa que balançava as folhas dos carvalhos e olivais ao redor do pequeno vilarejo onde D. Pedro e Nuno haviam pernoitado. O ar cheirava a terra molhada e a lenha queimada, e os primeiros raios de sol refletiam-se nas poças deixadas pela chuva da noite anterior. Havia silêncio, mas não era vazio: cada som, desde o chilrear distante de pássaros até ao murmúrio do vento, parecia conter uma lição velada, pronta a ser observada e compreendida.

D. Pedro caminhava à frente, passo medido, olhando cada detalhe do caminho. Nuno seguia-o, agora mais atento do que nunca, consciente de que cada gesto do Infante carregava uma lição não apenas de moral, mas de observação e experiência. Hoje, explicou D. Pedro, aprenderiam sobre a virtude mais difícil de todas: fazer o bem sem que a própria mão esquerda saiba o que faz a direita.

— Nuno — começou, a voz calma, porém firme —, o verdadeiro benefício não busca aplauso, reconhecimento ou gratidão. O bem que se mostra é como ouro falso: brilha, mas não nutre. A virtude mora naquilo que permanece invisível, naquilo que serve sem ser notado, na ajuda silenciosa que transforma vidas sem vanglória.

O jovem escudeiro franziu o sobrolho. — Senhor, como podemos então saber se estamos fazendo algo de valor? Se ninguém vê, como podemos medir o efeito do nosso gesto?

D. Pedro sorriu levemente, quase como se antecipasse a pergunta. — O efeito do bem não se mede pelo aplauso alheio, Nuno, mas pela mudança que provoca no outro e, sobretudo, na nossa própria consciência. O verdadeiro benefício é discreto, silencioso e firme; ele não precisa de testemunhas.

Caminharam até uma pequena ponte de madeira sobre um riacho. Ao longe, ouviram um choro fraco. Aproximaram-se com cuidado e encontraram uma mulher, sentada no chão, a proteger um recém-nascido enrolado em trapos finos. O olhar dela estava cansado, desesperado. Nuno sentiu o impulso de se adiantar, mas D. Pedro ergueu a mão, pedindo silêncio.

— Observa — murmurou. — Não devemos oferecer antes de perceber o que realmente serve.

O Infante aproximou-se da mulher, retirando um pequeno saco de moedas de ouro, mas antes de entregá-lo, falou com ela em voz baixa:

— Não para ostentar, mas para aliviar. Não para que te lembres de quem o dá, mas para que o uses para proteger o teu filho.

A mulher recebeu o saco com lágrimas nos olhos, sem perguntar o nome dele, sem buscar elogio, apenas aceitando a ajuda com humildade e gratidão silenciosa. Nuno compreendeu, pela primeira vez, o poder do gesto invisível: ninguém aplaudia, ninguém comentava, mas o bem realizado era real e duradouro.

Seguiram caminho, atravessando campos e pequenas aldeias. D. Pedro contava histórias de antigos regentes e mercadores que usavam o benefício de forma ostentatória, apenas para reforçar status ou poder. Alguns perderam a lealdade do povo; outros, quando mortos, foram esquecidos. Por outro lado, havia relatos de homens e mulheres que ajudaram silenciosamente, sem registro ou testemunha. Suas ações, ainda que invisíveis, transformaram famílias, comunidades, cidades inteiras — e as suas virtudes perduraram nos gestos daqueles que receberam ajuda e aprenderam a continuar o ciclo do bem.

— Vês, Nuno — disse D. Pedro —, o benefício oculto exige não apenas generosidade, mas humildade e paciência. Quem busca louvor ou reconhecimento transforma o gesto em comércio, não em virtude. A mão que dá deve ser leve, a intenção pura, e o resultado confiado à providência, ao tempo e à ação do outro.

Mais adiante, encontraram um jovem aprendiz de ferreiro, sentado sozinho, coberto de fuligem, tentando consertar uma lâmina quebrada. Sem anúncio ou alarde, D. Pedro retirou do seu bolso um pequeno conjunto de ferramentas e entregou-o discretamente ao rapaz. Ele levantou os olhos surpreso, mas não perguntou quem as dera nem pediu agradecimento; apenas começou a trabalhar, com novo vigor.

Nuno observou, sentindo uma mistura de admiração e confusão. — Mas, senhor, como saber se fizemos diferença se ninguém nos diz?

— A diferença existe no efeito, não na percepção. O bem que não se vê com os olhos pode ser sentido com o coração. Aprende a confiar no impacto silencioso de cada gesto — respondeu D. Pedro, colocando a mão no ombro do rapaz. — O benefício oculto é o mais puro, porque não está contaminado pelo orgulho, pela vaidade ou pela expectativa.

Seguiram até um campo onde crianças brincavam descalças, algumas famintas, outras apenas curiosas com a presença dos viajantes. D. Pedro entregou discretamente sacos de pão e queijos a um grupo de mulheres que cuidavam delas, sem que as crianças percebessem de imediato. Quando estas encontraram o alimento, a surpresa e a gratidão silenciosa das cuidadoras foram suficientes para Nuno perceber que a verdadeira satisfação não vem da exibição, mas da mudança concreta e necessária.

Ao cair da noite, acamparam perto de uma pequena colina. O fogo crepitava, lançando sombras longas sobre a terra, e Nuno, pensativo, disse:

— Senhor, sinto que hoje aprendi algo mais profundo que simplesmente dar. Mas ainda me inquieta a dúvida: como manter o equilíbrio entre ajudar e não ser percebido?

D. Pedro sorriu, olhando para as estrelas que começavam a surgir. — Nuno, o equilíbrio reside no coração. O bem deve ser oferecido sem ego, sem pressa, e sem olhar para a recompensa. A mão que se move pelo reconhecimento falha, a que se move pelo orgulho engana. A mão que se move pelo bem puro, mesmo que oculta, transforma mundos. Não é a visibilidade que define o valor de um gesto, mas a integridade que o sustenta.

O jovem escudeiro permaneceu em silêncio, absorvendo cada palavra. Pela primeira vez, compreendeu que a verdadeira generosidade não se mede em moedas, palavras ou aplausos, mas na transformação que provoca, silenciosa, invisível, mas duradoura. Cada ação discreta, cada ajuda silenciosa, tinha agora um significado mais profundo: era um reflexo da própria alma, uma prova de caráter e de intenção.

Antes de adormecer, Nuno olhou para o fogo, pensando nas pessoas que encontraram ao longo do dia: a mãe com o recém-nascido, o jovem ferreiro, as cuidadoras das crianças. Cada uma recebera algo essencial, mas de forma que nenhum orgulho ou vaidade pudesse intervir. E, finalmente, entendeu que a arte do benefício oculto não é apenas moral, mas estratégica: fortalece o mundo sem precisar de testemunhas, constrói legados invisíveis e cria raízes que perduram muito além da nossa presença.

Enquanto a noite envolvia a colina com seu manto silencioso, Nuno percebeu que o verdadeiro desafio do bem não é apenas agir, mas agir de forma que o bem resista à prova do tempo e do ego. O benefício oculto, finalmente, era a maior lição de todas: doar sem esperar, servir sem ostentar, amar sem exigir retorno.

E assim, sob o céu estrelado, Nuno adormeceu mais consciente, com a certeza de que cada gesto, mesmo discreto e invisível, tinha o poder de transformar o mundo — e de o transformar a si mesmo.

Capítulo X – As Correntes da Amizade

O sol da manhã tingia de dourado os campos que cercavam o vilarejo onde D. Pedro e Nuno haviam passado a noite. O ar era fresco, carregado do cheiro das ervas silvestres e da terra ainda húmida pelo orvalho. O jovem escudeiro caminhava atento, percebendo cada detalhe ao redor: o farfalhar das folhas, o canto distante de aves e o ritmo constante do próprio coração. Havia algo diferente naquele dia — uma expectativa silenciosa, uma promessa de lição que transcenderia o simples ato de ajudar.

D. Pedro caminhava à frente, o passo firme, mas calmo, observando o horizonte. Ao ver Nuno hesitar, virou-se e disse:

— Hoje, Nuno, aprenderás que o benefício e a amizade caminham juntos. Não basta dar; é preciso cultivar laços que sustentem a comunidade, a família e até o reino. A amizade é uma corrente invisível, mas tão forte quanto o ferro. Cada elo deve ser forjado com confiança, respeito e reciprocidade.

Nuno ponderou, franzindo o sobrolho. — Senhor, mas o que tem isso a ver com a generosidade?

— Tudo — respondeu D. Pedro, sorrindo levemente. — A troca de favores honestos cria vínculos que ninguém pode quebrar. Quando ajudamos com intenção pura, fortalecemos não apenas quem recebe, mas também quem oferece. A amizade verdadeira é, na verdade, uma rede de benefícios mútuos, mas baseada na lealdade, não na obrigação.

Enquanto avançavam pelo vilarejo, encontraram um grupo de jovens camponeses tentando mover um carro de bois atolado na lama. Cada esforço parecia inútil. Nuno prontamente correu para ajudá-los, mas D. Pedro deteve-o com um gesto calmo.

— Observa, Nuno — disse —, a amizade e a ajuda devem ser conscientes. Quem ajuda sem entendimento ou sem parceria apenas consome energia; quem se une em ação cria algo que perdura.

Juntos, D. Pedro e Nuno ajudaram os jovens a libertar o carro, não impondo força, mas ensinando-lhes técnicas e mostrando paciência. Ao final, os jovens não apenas conseguiram seu objetivo, mas aprenderam a trabalhar juntos, fortalecendo laços entre si.

O Infante prosseguiu:

— Vês, Nuno? Cada gesto de auxílio pode ser semente de amizade. Mas deve ser feito com sabedoria, atenção e honestidade. Um elo falso, forçado pela obrigação, quebra facilmente; um elo sincero, forjado no respeito mútuo, sustenta-se diante das adversidades.

Mais tarde, chegaram a uma pequena casa onde morava um velho artesão, conhecido pela sua habilidade e generosidade. Recebeu-os com cordialidade, e logo se estabeleceu um diálogo profundo. O artesão falava de tempos passados, quando ajudava vizinhos, sem esperar retorno, mas sempre reconhecendo quem também estendia a mão em momentos de necessidade.

D. Pedro aproveitou para ensinar:

— Observa como a amizade verdadeira é tecida, Nuno. Não é apenas dar e receber, mas reconhecer o esforço e a boa intenção do outro. Cada favor honesto, cada gesto de cooperação, reforça a corrente que une pessoas e fortalece sociedades.

Nuno começou a compreender. Até então, pensava que amizade se baseava apenas em afinidade ou companheirismo. Agora entendia que, quando combinada com ações virtuosas, se tornava uma força que podia sustentar famílias, vilarejos, até reinos inteiros.

Enquanto caminhavam pelo bosque próximo, encontraram duas crianças disputando uma bola improvisada, cada uma querendo impor sua vontade. D. Pedro sentou-se sob um carvalho e observou.

— A amizade também exige mediação — disse. — É aprender a equilibrar interesses, a respeitar o outro, a estender a mão sem tomar o lugar de quem necessita crescer por si próprio.

Nuno ajudou as crianças a compreenderem a importância de cooperar, mostrando que a verdadeira vitória não estava em vencer a disputa, mas em criar harmonia. Os pequenos sorriram, compreendendo a lição sem que ninguém precisasse insistir.

Mais adiante, o Infante contou uma história de sua própria infância, quando, mesmo sendo príncipe, aprendera a valorizar a lealdade e a confiança acima do ouro ou da glória:

— Fui ajudado muitas vezes — disse D. Pedro —, mas aprendi que o verdadeiro benefício está em quem reconhece e retribui com honestidade. A amizade é construída com atenção, respeito e reciprocidade. Quem recebe e esquece, quem toma sem dar, quebra o elo. Quem dá com intenção sincera fortalece a corrente para todos.

Nuno, absorvendo cada palavra, percebeu que todas as lições anteriores — a arte de dar, o solo da gratidão, o tempo das mãos, o benefício oculto — convergiam para esta: a amizade verdadeira é uma rede de bondade, confiança e ação consciente. O poder de unir pessoas com honestidade, respeito e generosidade é o que sustenta comunidades e legados duradouros.

Quando o sol começou pôr-se, tingindo de laranja e púrpura o horizonte, D. Pedro e Nuno sentaram-se à beira de um pequeno riacho. O Infante explicou:

— Nuno, observa a água. Ela flui, mas cada gota encontra o seu caminho, respeitando obstáculos e ajudando o que encontra pelo caminho. Assim é a amizade e o benefício. Devem fluir com paciência, atenção e sinceridade. Cada gesto cria correntes que fortalecem todos que participam.

O jovem escudeiro sorriu, finalmente compreendendo. Pela primeira vez, viu a conexão entre todos os ensinamentos anteriores: a generosidade, a escolha do recetor, o tempo das mãos e o benefício oculto eram instrumentos para criar correntes de amizade e confiança, que sustentam não apenas indivíduos, mas toda a sociedade.

Enquanto a noite caía, cobrindo a aldeia e o bosque com sua escuridão tranquila, Nuno sentiu-se mais leve e mais consciente do papel que poderia desempenhar no mundo. A amizade, pensou, é mais do que laços de afeto: é uma teia de virtude e ação consciente, capaz de resistir ao tempo, às dificuldades e às ingratidões.

D. Pedro observava o jovem, satisfeito:

— Lembra-te, Nuno. As correntes que fortaleces hoje serão o teu legado amanhã. Cada gesto honesto, cada ajuda oferecida com intenção pura, cada amizade cultivada com respeito, cria raízes profundas que sustentarão todos os que vêm depois de nós. Essa é a verdadeira medida da honra e da virtude.

O crepitar distante de uma fogueira, o murmúrio do riacho e o canto das corujas completavam a atmosfera silenciosa, transmitindo a sensação de que as lições não terminam com o dia, mas continuam a florescer nas ações, nos gestos e nos laços humanos. Nuno adormeceu naquela noite com o coração cheio de compreensão, ciente de que cada ato de generosidade, cada amizade cultivada com sinceridade, era uma corrente invisível que poderia sustentar a vida e a honra de muitos.

Capítulo XI – O Julgamento da Consciência

A manhã começou silenciosa, envolta numa neblina espessa que mal deixava ver os contornos das colinas. O ar tinha o cheiro húmido da terra e das folhas, e cada passo que D. Pedro e Nuno davam pelos caminhos estreitos ecoava suavemente, misturando-se ao canto distante de pássaros e ao murmúrio do vento. Havia no ambiente uma expectativa contida, quase solene, como se o mundo inteiro aguardasse o desenrolar de uma lição mais pesada do que qualquer outra que Nuno já tivera.

O Infante caminhava à frente, o passo calmo, mas firme, mãos cruzadas atrás das costas. Nuno, observando-o, sentiu pela primeira vez um peso diferente: não era apenas o peso das lições anteriores, nem da responsabilidade de agir corretamente, mas o peso de compreender a própria consciência diante de decisões de vida e morte, de justiça e perdão.

— Nuno — começou D. Pedro, a voz baixa, porém carregada de firmeza —, hoje aprenderás que o maior benefício que podemos oferecer, e o maior fardo que podemos suportar, é julgar com a consciência limpa. Não se trata apenas de decidir o que é certo ou errado, mas de pesar o coração de quem decide.

— Senhor — disse Nuno, hesitante —, mas não é mais fácil seguir a lei ou a regra? Por que a consciência tem tanto peso?

— Ah, rapaz — respondeu o Infante, parando por um instante e olhando para o horizonte enevoado —, a lei é rígida, fria; a consciência é viva, e conhece nuances que a letra não contempla. Um governante, um regente, deve decidir entre o perdão e o castigo, entre a misericórdia e a severidade. Cada escolha deixa marcas não apenas nos outros, mas na sua própria alma. O julgamento da consciência é, muitas vezes, mais pesado que o de qualquer tribunal.

Chegaram ao vilarejo onde ocorrera um conflito recente entre duas famílias, uma disputa antiga que ameaçava transformar-se em violência aberta. Um dos jovens, acusado de roubo, estava detido na pequena cela da torre. Nuno sentiu o impulso imediato de julgar, de seguir o senso comum, mas D. Pedro interrompeu-o:

— Observa, Nuno. Antes de decidir, olha, ouve, pondera. Não julgarás apenas pelo ato, mas pelo coração que o cometeu.

O Infante aproximou-se da cela, chamando o jovem para fora, mas mantendo um olhar atento. O rapaz tremia, não apenas pelo medo da punição, mas pela consciência da própria culpa.

— Dize-me — começou D. Pedro, com calma —, por que fizeste isso?

O jovem hesitou, mas finalmente respondeu:

— Senhor, fi-lo por necessidade. A minha família passa fome, e eu não queria ver os meus irmãos morrerem. Não quis prejudicar ninguém, além de mim mesmo.

D. Pedro voltou-se para Nuno e sussurrou:

— Vês, Nuno? O julgamento não é simples. O ato é errado, mas a intenção revela um coração que busca o bem de outra forma. A justiça deve pesar ambos: ação e intenção.

O jovem escudeiro percebeu a complexidade da situação. A lei exigia punição, mas a consciência exigia discernimento. D. Pedro continuou:

— O perdão, quando aplicado com justiça, não é fraqueza. É força. O castigo, quando aplicado sem reflexão, pode gerar ódio, desconfiança e discórdia. A virtude do regente está em equilibrar essas forças, de modo que a sociedade aprenda e se fortaleça, sem perder a humanidade.

Enquanto caminhavam pelos corredores da pequena torre, D. Pedro explicou mais:

— Cada decisão deixa marcas. Julgar apenas pelo que os olhos veem é fácil; julgar pelo que o coração percebe exige coragem. A consciência não é um tribunal alheio; é um espelho interno. O bem que se faz, e o mal que se evita, refletem-se na tua própria alma.

Mais tarde, reuniram os líderes das famílias envolvidas na disputa. D. Pedro conduziu a conversa com paciência, ouvindo queixas, compreendendo motivações, medindo palavras. Nuno percebeu que o Infante não apenas aplicava justiça, mas ensinava respeito, empatia e responsabilidade. Cada decisão era cuidadosamente ponderada, cada palavra escolhida para não ferir desnecessariamente, mas para corrigir, orientar e unir.

— Lembra-te, Nuno — disse D. Pedro, depois de horas de deliberação —, o julgamento da consciência não é um momento isolado. Ele permeia cada ato de governo, cada gesto de liderança. Quem governa apenas pela lei, sem ouvir a própria consciência, pode manter a ordem, mas jamais inspirará lealdade ou respeito verdadeiro.

O jovem escudeiro olhou para as famílias, agora reconciliadas, entendendo que o perdão concedido não era mero ato de clemência, mas instrumento de construção social. A justiça aplicada com consciência cria vínculos, fortalece a comunidade e preserva a dignidade de todos, inclusive do próprio governante.

Ao entardecer, D. Pedro e Nuno caminharam até uma colina próxima, observando o vilarejo do alto. O sol tingia as casas e campos de dourado, e o vento levava consigo o aroma da terra fértil.

— Hoje, Nuno — disse o Infante —, aprendeste que o maior poder não está na espada ou no decreto, mas no discernimento do coração. Julgar é um dom e um fardo. O regente que se deixa guiar apenas pelo medo ou pelo orgulho jamais encontrará a verdadeira justiça. A consciência é a balança que mede intenções e ações, perdão e castigo, misericórdia e rigor.

Nuno sentiu o peso dessas palavras, mas também a clareza. Pela primeira vez, compreendeu que governar não era apenas aplicar regras, mas conhecer corações, equilibrar forças e criar harmonia. A decisão certa muitas vezes exigia paciência, reflexão e coragem moral. O verdadeiro benefício do poder residia na responsabilidade silenciosa de escolher corretamente, mesmo quando ninguém observa.

Enquanto a noite descia, tingindo o céu de azul profundo, Nuno percebeu que a justiça não era uma espada ou um martelo, mas uma corrente subtil que ligava ação, intenção e consequência. O julgamento da consciência exigia coragem, sabedoria e humildade — virtudes que ele agora começava a compreender em toda a sua profundidade.

Antes de adormecer, o jovem escudeiro olhou para D. Pedro, reconhecendo que cada passo daquela jornada não era apenas uma viagem física, mas uma peregrinação interior. A consciência, concluiu, é a verdadeira corte de um governante: invisível, silenciosa, mas sempre vigilante. E o bem feito com reflexão e coragem é o alicerce de qualquer sociedade que aspire à paz e à honra duradouras.

Capítulo XII – A Colheita Final

O sol da manhã iluminava o horizonte com uma luz quente e serena, tingindo de ouro os campos que se estendiam além do vilarejo. D. Pedro e Nuno caminhavam devagar por entre as fileiras de trigo e cevada, o ar fresco carregado de perfumes da terra recém-arada e do orvalho que ainda brilhava nas folhas. Haviam percorrido longas estradas, atravessado cidades e aldeias, e agora sentiam o peso e a plenitude de tudo o que aprenderam. Era tempo de refletir sobre o que haviam semeado e o que colheriam.

— Nuno — disse D. Pedro, detendo-se entre duas grandes árvores, as suas mãos cruzadas atrás das costas —, chegamos ao momento de compreender o que significa a colheita. Cada ato de bem que fizemos, cada lição aprendida, cada escolha ponderada, tudo isso é como sementes lançadas à terra. Algumas germinaram rapidamente, outras ainda esperam tempo e cuidado. Mas a soma de tudo define a colheita final.

Nuno olhou para o vasto campo e sentiu a verdade daquilo que o Infante dizia. Pela primeira vez, percebeu que todas as lições — a semente do bem, a arte de dar, o solo da gratidão, o tempo das mãos, o benefício oculto, as correntes da amizade e até o julgamento da consciência — não eram apenas ensinamentos isolados. Eram partes de um ciclo que se completava: a vida em que o bem, plantado com atenção e intenção, floresce de forma duradoura.

— Senhor — disse Nuno —, às vezes parece que ajudamos tanto e não vemos frutos imediatos. Como saber se as nossas sementes germinaram?

D. Pedro sorriu, olhando o jovem com ternura e firmeza. — A colheita não é sempre visível. Alguns frutos só se revelam anos depois, em ações de outros, em comunidades fortalecidas, em vidas transformadas. O bem que se faz com sinceridade, com paciência e com atenção ao outro deixa raízes profundas. Mesmo invisível, é real e duradouro.

Seguiram por entre as fileiras de trigo, observando o vento mover-se entre as espigas, fazendo-as ondular como um mar dourado. O Infante continuou:

— Cada gesto de generosidade, cada decisão justa, cada ato silencioso e consciente, é uma semente. Algumas caem em solo fértil e crescem rapidamente; outras encontram pedras ou sombras e demoram a florescer. Mas todas têm valor, Nuno. A colheita final é a soma desses esforços, e o legado que deixamos é medido não pelo ouro ou glória, mas pelo impacto duradouro que geramos no mundo.

Para ilustrar, contou-lhe uma história de sua juventude, quando ainda era príncipe:

— Lembro-me de uma aldeia onde crianças brincavam à beira do rio. Ajudei-os a construir uma ponte de madeira para que pudessem atravessar com segurança. Naquele momento, parecia apenas um gesto simples, sem importância. Mas anos depois, soube que aquela ponte permitira o comércio local, a educação e a união das famílias. Um gesto silencioso, um benefício aparentemente pequeno, transformou-se em base de prosperidade.

Nuno compreendeu, finalmente, que a verdadeira medida do bem não está na grandiosidade do gesto, mas no efeito que gera, muitas vezes invisível e prolongado.

Enquanto caminhavam, encontraram uma família que lhes ofereceu abrigo e pão. D. Pedro observou como haviam cultivado a generosidade entre si, transmitindo-a aos filhos, e explicou:

— Repara, Nuno, como a colheita é coletiva. Cada ato de bem influenciou outros, criando uma rede de virtudes que sustenta vidas. O benefício não é apenas individual; é a soma de muitas mãos, muitas consciências, muitos corações. É o que eu chamo benfeitoria: o esforço de viver de maneira a semear, proteger e fortalecer o bem em todos que nos cercam.

O jovem escudeiro sentiu uma clareza profunda. Todas as lições anteriores — a paciência de esperar o tempo certo, o discernimento para escolher o recetor, a humildade de agir sem ostentação, a justiça ponderada da consciência — agora revelavam-se como partes de uma mesma verdade: a virtude é um ciclo que começa com pequenas sementes e termina na colheita da comunidade, da honra e do legado.

Mais adiante, D. Pedro parou diante de uma árvore frondosa, oferecendo sombra e abrigo. Encostou-se ao tronco e disse:

— Nuno, quando olhares para trás, ao fim desta jornada, lembra-te disto: a verdadeira imortalidade não está nos palácios ou nas coroas, mas na benfeitoria. O que semeamos com intenção pura, coragem e atenção, permanece além de nós, transformando vidas e inspirando gerações. Cada escolha justa, cada ajuda silenciosa, cada amizade cultivada, tudo isso é a colheita final de uma vida bem vivida.

O jovem escudeiro respirou fundo, sentindo a magnitude da lição. Pela primeira vez, compreendeu que as estradas percorridas, as mãos estendidas, os conselhos e reflexões do Infante não eram apenas exercícios de moralidade, mas preparações para viver de modo que o bem se perpetuasse, invisível e duradouro, muito além do tempo de quem o semeou.

Enquanto o sol se punha, tingindo o campo de dourado e carmesim, D. Pedro e Nuno sentaram-se juntos, contemplando a vastidão do horizonte. O Infante falou, com voz serena e firme:

— Lembra-te, Nuno, a colheita final não é apenas o resultado de um dia ou de uma ação. É a soma de todas as escolhas, gestos e pensamentos de uma vida dedicada ao bem. Quem compreende isso, quem vive de acordo com essas lições, deixa um legado que nem o tempo apaga. A verdadeira honra, a verdadeira imortalidade, é a benfeitoria que permanece nos corações de todos os que tocamos.

Nuno olhou para os campos ondulantes, sentindo a força e a profundidade das palavras de D. Pedro. Pela primeira vez, viu a vida como um ciclo completo, onde cada ação, mesmo pequena, podia germinar e transformar o mundo. Entendeu que a generosidade, a justiça, a amizade e o discernimento não são apenas virtudes isoladas, mas correntes que, quando entrelaçadas, criam a rede invisível que sustenta a humanidade.

Ao anoitecer, o vilarejo estava calmo. O vento trazia o cheiro da terra fértil, e as estrelas surgiam, brilhando como testemunhas silenciosas de tudo o que fora aprendido. Nuno sentiu que, ao fim desta jornada, estava pronto para carregar consigo o legado de D. Pedro: viver de modo que cada gesto de bem, cada decisão justa, cada amizade cultivada, contribuísse para a colheita final — a verdadeira imortalidade da virtude e da benfeitoria.

E assim, sob o céu estrelado, D. Pedro e Nuno permaneceram em silêncio, contemplando os campos que haviam atravessado, cada um refletindo sobre o caminho percorrido, sobre o que fora aprendido e sobre as sementes que ainda precisariam de semear. A jornada chegava ao fim, mas a colheita, essa, continuaria a crescer, silenciosa e duradoura, nas mãos e corações de todos os que aprenderam a benfeitoria.

Epílogo – Reflexões sobre a Benfeitoria

O silêncio caiu sobre os campos dourados, apenas interrompido pelo sussurro do vento entre as espigas e pelo canto distante de uma coruja solitária. D. Pedro e Nuno haviam regressado das suas jornadas, atravessando vilarejos, bosques e estradas antigas, e cada passo deixara marcas não apenas no mundo exterior, mas nos corações e mentes de quem caminhava ao lado do Infante. A viagem terminara, mas o verdadeiro conhecimento ainda se desdobrava no interior de cada um deles.

O jovem escudeiro, agora mais consciente e ponderado, refletia sobre tudo o que aprendera. Recordava os princípios ensinados: o cuidado em semear o bem, a arte de dar com intenção pura, a importância da gratidão e do tempo, a atenção aos recetores, o valor da amizade e da lealdade, e, sobretudo, a vigilância constante da própria consciência. Cada capítulo daquela jornada fora uma lição sobre a vida, sobre a natureza humana e sobre o delicado equilíbrio entre poder e responsabilidade, entre ação e intenção.

D. Pedro, observando o horizonte, falou finalmente:

— Nuno, se há algo que deves levar contigo, é isto: a vida é a terra onde plantamos as nossas escolhas. Cada gesto, cada palavra, cada ação é uma semente. Algumas germinam imediatamente, outras demoram, e algumas talvez jamais sejam visíveis. Mas todas têm efeito, e todas voltam, de uma forma ou de outra, sobre aqueles que semeiam.

O Infante fez uma pausa, respirando profundamente o ar da tarde.

— O que aprendeste nestes anos de viagem não é apenas sobre dar ou ajudar; é sobre viver com atenção, viver com responsabilidade, viver de maneira que o bem seja a força que move as tuas mãos e a tua mente. O benefício verdadeiro não é aquele que se vê; é aquele que transforma, ainda que silenciosamente.

Nuno, sentindo a profundidade daquilo que ouvira, perguntou:

— Senhor, e se nem todos compreenderem ou apreciarem o bem que fazemos?

— Então é ainda mais importante — respondeu D. Pedro, firme, mas com ternura —. O valor de um gesto não depende do reconhecimento, mas da intenção que o sustenta e do efeito que produz. A mão que dá com orgulho, mas busca aplauso, falha; a mão que dá com humildade e coragem, mesmo oculta, cumpre a sua função mais nobre.

O jovem escudeiro percebeu, finalmente, que todas as histórias contadas, todos os exemplos, todas as correções e diálogos de D. Pedro convergiam para uma verdade essencial: a virtude não é um prémio, nem a generosidade um espetáculo. São instrumentos de transformação, tanto do mundo quanto de quem os pratica. E o verdadeiro legado de qualquer vida não é medido pelo ouro, pelos títulos ou pelos elogios, mas pelo efeito duradouro do bem feito.

O Infante continuou, a voz serena, mas carregada de peso filosófico:

— A benfeitoria é a ponte entre ação e eternidade. Quem a compreende e pratica constrói algo que resiste ao tempo: não a fama, não a riqueza, mas a mudança positiva, silenciosa e persistente. As sementes que lançamos hoje podem germinar nas vidas que nunca conheceremos, nos corações que jamais veremos, mas continuarão a crescer, invisíveis, firmes e essenciais.

Nuno olhou para o horizonte, vendo os campos ondularem como um mar dourado, sentindo a magnitude daquilo que aprendera. Compreendeu que a jornada com D. Pedro fora mais do que uma lição de ética ou política; fora um caminho de autoconhecimento, de reflexão e de compromisso com a própria humanidade. A verdadeira imortalidade, percebia agora, residia na colheita do bem: na capacidade de tocar vidas, mesmo quando ninguém observa, e de construir correntes de amizade, gratidão e justiça que sustentam sociedades inteiras.

— Lembra-te, Nuno — concluiu o Infante, voltando o olhar para o jovem —, a vida é finita, mas a virtude, quando semeada com atenção, coragem e humildade, não morre. A benfeitoria é a única herança que transcende o tempo, a única forma de imortalidade que realmente importa. Quem aprende a agir assim não apenas vive; transforma. Não apenas governa; inspira. Não apenas existe; permanece.

O vento continuava a soprar, movendo as espigas de trigo e levando consigo o eco das lições, das histórias e das reflexões. Nuno sentiu que aquele momento era um ponto de chegada e de partida ao mesmo tempo: o fim da viagem física com D. Pedro e o início da viagem interior que duraria toda a sua vida. Cada gesto futuro seria agora um reflexo do que aprendera: a intenção acima da ostentação, a consciência acima da pressa, a amizade acima da vantagem, e a benfeitoria acima de tudo.

Enquanto a luz dourada da tarde se transformava em sombras suaves, Nuno olhou para o Infante e percebeu que a verdadeira grandeza de D. Pedro não estava nas conquistas visíveis, mas na sabedoria silenciosa que transmitia, nas sementes de virtude que semeava e na colheita final que todos, direta ou indiretamente, teriam a oportunidade de colher.

E assim, sob o céu que se tingia de crepúsculo, a narrativa chegava ao seu fim: não com fanfarra ou glória, mas com reflexão, silêncio e a certeza de que a verdadeira vida — e a verdadeira imortalidade — se encontra na prática constante do bem, na consciência tranquila e no legado invisível, mas eterno, da benfeitoria.

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O Ofício das Sombras

1

A névoa de dezembro não subia do Rio Minho; parecia, antes, emanar das próprias pedras de granito da Igreja de São Tiago. Era uma humidade ancestral, que se entranhava na madeira dos bancos e no verniz descascado do altar, um frio que nenhuma oração parecia capaz de aquecer. Tomás, revestido com os paramentos da Igreja Lusitana, sentia o peso do tecido sobre os ombros como se fosse uma armadura de chumbo. À sua frente, a nave da pequena igreja estendia-se como um navio fantasma, onde o eco dos seus próprios passos era o único sinal de vida.

O relógio de parede, um objeto de madeira escura doado por uma família de ingleses que outrora gerira as minas da região, marcava as onze da manhã. Em qualquer outra paróquia daquela zona do Norte, a esta hora, os sinos estariam a convocar as massas, o cheiro a incenso e a cera derretida preencheria os sentidos, e o latim murmurado criaria um manto de mistério reconfortante. Mas ali, na margem herética da fé nacional, o silêncio era absoluto. Um silêncio que Tomás já não conseguia distinguir do silêncio de Deus.

Ele aproximou-se do altar para a celebração da Ceia do Senhor. O pão e o vinho esperavam-no, elementos simples de uma liturgia que, nos anos 60 em Portugal, era vista com uma mistura de suspeição e desprezo. Ser anglicano numa aldeia minhota era uma forma de exílio espiritual. Para as autoridades do Estado Novo e para o bispado católico vizinho, aquela pequena comunidade era uma anomalia, um resto de influência estrangeira que devia ser ignorado até desaparecer.

Tomás olhou para a assembleia. Três pessoas. Apenas três.

Na primeira fila, Maria permanecia imóvel. O seu rosto, marcado por uma palidez que a luz cinzenta que atravessava os vitrais simples apenas acentuava, estava focado nele com uma intensidade que o perturbava. Maria, a professora primária da escola oficial, que arriscava o seu posto de trabalho e a sua reputação social todos os domingos ao sentar-se naqueles bancos. Tomás via as suas mãos, cruzadas sobre o colo, onde o eczema florescia em manchas avermelhadas e ásperas. Aquelas mãos eram, para ele, o símbolo de uma humanidade demasiado presente, demasiado exigente. O amor que ela lhe dedicava era uma forma de asfixia. Não era a devoção intelectual que ele partilhara com a sua falecida esposa, mas uma necessidade física e emocional que ele não tinha como retribuir.

Ao fundo, o sacristão, um homem cujo corpo parecia moldado pelo trabalho na terra e cuja fé era uma questão de hábito teimoso, aguardava os sinais para o serviço. E, a um canto, quase invisível nas sombras, Jonas, o pescador, com os olhos cravados no chão, o corpo curvado sob o peso de um terror que Tomás ainda não compreendia totalmente.

— “O Senhor esteja convosco,” disse Tomás. A sua voz, outrora profunda e segura, soou-lhe agora estranha, como se viesse de outra sala.

— “E com o teu espírito,” respondeu Maria, a voz dela clara e firme, preenchendo o vazio da nave com uma convicção que o pastor invejava e detestava simultaneamente.

Tomás iniciou a leitura. As palavras do Evangelho, que outrora foram o seu sustento, pareciam agora desprovidas de significado. Eram fonemas vazios, uma coreografia de sons que ele executava por dever profissional. Enquanto falava, a sua mente fugia para o quarto onde a sua esposa, quatro anos antes, dera o último suspiro. Lembrava-se da luz do sol a bater nas cortinas e da forma como a fé dela se mantivera intacta até ao fim, enquanto a dele começara a fragmentar-se ali mesmo, naquele quarto de hospital.

Deus, para Tomás, tornara-se uma ausência geométrica. Ele procurava-O na oração e encontrava apenas o seu próprio monólogo interior. Procurava-O no rosto dos seus paroquianos e encontrava apenas a miséria de uma vida camponesa marcada pela escassez e pelo medo da polícia política. A “Luz do Mundo” era, naquele inverno português, um conceito abstracto, abafado pela censura e pelo conservadorismo asfixiante que pairava sobre o país.

Ao distribuir o pão, os seus dedos tocaram acidentalmente na palma da mão de Maria. O calor da pele dela causou-lhe um estremecimento de repulsa. Ele não queria ser o objeto da salvação de ninguém; ele próprio era um náufrago. Maria olhou-o nos olhos ao receber a hóstia, um olhar que pedia reconhecimento, que pedia que ele visse a mulher por trás da fiel. Tomás desviou o olhar para o cálice. O vinho tinto da região, usado no sacramento, parecia-lhe agora sangue frio, sem poder de transubstanciação ou de redenção.

O rito prosseguia mecanicamente. O som do vento a assobiar nas frinchas das janelas de madeira velha sobrepunha-se às preces. Era um som de desolação, o som de um Norte interior que ficava para trás, esquecido pelo progresso e pela história. Tomás sentia que aquela igreja era um túmulo para os vivos. Ele era o guardião de um cemitério de esperanças.

Quando finalmente pronunciou a bênção final, sentiu um alívio amargo. O “serviço” terminara, mas a verdadeira provação estava prestes a começar. O silêncio que se seguiu ao “Amém” foi mais pesado do que qualquer palavra dita. Ele retirou-se para a sacristia, um espaço exíguo onde o cheiro a mofo e a papel velho era predominante. Ali, rodeado pelos registos de batismos e casamentos de uma comunidade que definhava — jovens que partiam para a guerra em Angola ou que fugiam “a salto” para França — Tomás sentou-se à mesa de madeira.

A porta da sacristia rangeu. Era o sacristão, trazendo o aviso de que o pescador, Jonas, aguardava por uma palavra. Tomás suspirou. A obrigação pastoral era uma máscara que ele tinha de colocar todos os dias, mas as tiras da máscara estavam a arrebentar. Ele sabia que o que o pescador trazia não era uma dúvida teológica, mas uma angústia existencial que ele, o pastor, já não tinha ferramentas para reparar.

Lá fora, a luz do sol de inverno tentava romper a neblina sobre o Minho, mas era uma luz sem calor, uma iluminação que apenas servia para revelar as fendas nas paredes e a solidão profunda de um homem que, em nome de Deus, tinha perdido a capacidade de amar os homens.


2

A sacristia da Igreja de São Tiago era um espaço de uma austeridade quase punitiva. As paredes de granito, escurecidas pela humidade que subia do solo e nunca chegava a secar totalmente, estavam decoradas apenas com um calendário litúrgico de 1963 e um retrato desbotado do bispo da Igreja Lusitana. O ar cheirava a papel velho, a fumo de lenha húmida e ao hálito frio do inverno que parecia emanar das próprias pedras.

Tomás sentara-se à mesa de carvalho, as mãos ainda frias da celebração. À sua frente, Jonas, o pescador, mantinha-se de pé, com o boné de lã apertado entre as mãos calosas. Era um homem que o rio Minho moldara — pele curtida pelo sol e pelo salitre, olhos pequenos e profundos que pareciam sempre procurar algo no horizonte que nunca chegava. Mas hoje, os olhos de Jonas não procuravam o horizonte; estavam fixos no chão de lajes, carregados de um pavor que transcendia a dureza da vida na raia.

— “Diz-me, Jonas,” começou Tomás, a sua própria voz soando-lhe como um eco distante. “O que te traz aqui com tanto peso?”

O pescador demorou a responder. O silêncio na sacristia era apenas interrompido pelo estalar da lenha numa pequena salamandra que mal aquecia o ambiente. Quando finalmente falou, a voz de Jonas era um sussurro rouco, uma confissão que parecia arrancar-lhe as entranhas.

— “Eu li o que não devia, Senhor Pastor. Nos jornais que vêm da cidade, nos papéis que os rapazes trazem debaixo do braço… Dizem que o mundo está a acabar. Dizem que os chineses têm armas que podem queimar o céu. E agora, com a guerra lá no Ultramar… o meu filho mais velho já lá está, no mato, e o novo vai pelo mesmo caminho.”

Tomás observou o homem. Em Portugal, em 1963, o medo era visceral. Era o medo do telegrama que anunciava a morte em Angola ou na Guiné; era o medo da fome que empurrava os homens para o suicídio ou para o exílio clandestino; e era, acima de tudo, o medo de um Deus que permitia tal sofrimento.

— “Tens medo do fim do mundo?” perguntou Tomás, sentindo uma pontada de cinismo que tentou disfarçar.

— “Tenho medo de que não haja nada depois, Senhor Pastor,” respondeu Jonas, levantando finalmente os olhos. “Tenho medo de que estejamos aqui a sofrer, a perder os nossos filhos, a ver as redes vazias, para no fim… o céu ser tão vazio como o rio num dia de seca. Se Deus é amor, como dizem nas pregações, porque é que Ele permite que o mal se espalhe como uma mancha de óleo?”

Esta era a pergunta que Tomás temia, porque era a pergunta que ele próprio fazia a cada madrugada, quando acordava sozinho no presbitério. Em vez de oferecer o conforto pastoral que a sua função exigia — as palavras doces sobre a providência divina, a paciência de Job, a esperança na vida eterna — Tomás sentiu uma súbita e violenta necessidade de honestidade. A máscara de autoridade espiritual, que já estava rachada, desmoronou-se ali mesmo.

— “E se eu te dissesse, Jonas,” começou o pastor, inclinando-se para a frente, “que esse silêncio que sentes não é apenas um teste? E se eu te dissesse que Deus é, talvez, o maior dos silêncios?”

Jonas recuou um passo, chocado pela frieza das palavras do seu guia espiritual. Mas Tomás não conseguia parar. Era como se uma comporta tivesse sido aberta.

— “Tu olhas para mim e vês um homem de Deus. Mas eu olho para este crucifixo e vejo apenas madeira. Tu tens medo da guerra, Jonas, mas eu tenho medo da imobilidade. Desde que a minha esposa morreu, eu tenho batido à porta do Céu e ninguém responde. Nem um sopro. Nem um sinal. Nós somos como crianças abandonadas num quarto escuro, a inventar histórias para não termos medo do vazio. Tu queres que eu te diga que Deus vai salvar os teus filhos? Como posso dizer-te isso, se Ele não salvou a única pessoa que me fazia acreditar Nele?”

O pescador parecia agora mais aterrorizado pelo pastor do que pelas notícias de guerra. O desespero de Tomás era uma doença contagiosa. O pastor, num acesso de crueldade metafísica, estava a roubar ao homem a única coisa que lhe restava: a ilusão de que o seu sofrimento tinha um propósito.

— “Deus é um silêncio que nos esmaga,” continuou Tomás, a voz agora num tom de confissão febril. “Ele observa-nos do alto da Sua eternidade sem mover um dedo. O amor de Deus… talvez seja isso o que nos mata. É um amor que não se manifesta, que não intervém, que nos deixa apodrecer na nossa própria miséria. Talvez a salvação seja apenas isto, Jonas: aceitar que estamos sozinhos.”

Jonas não respondeu. Deixou cair o boné no chão, apanhou-o mecanicamente e, sem dizer uma palavra, saiu da sacristia. O som da porta pesada a bater ecoou pela igreja como um tiro.

Tomás ficou sozinho. O seu coração batia com uma força irregular. Ele sabia que tinha cometido um crime espiritual. Tinha quebrado a cana rachada e apagado o pavio que ainda fumegava. Mas, ao mesmo tempo, sentia um alívio perverso. Pela primeira vez em anos, tinha dito a verdade. A verdade era um sol de inverno: límpida, cortante e absolutamente desprovida de calor.

Ele levantou-se e foi até à pequena janela que dava para o cemitério anexo. Lá fora, a neblina começava a dissipar-se, revelando as cruzes de ferro forjado e os epitáfios gastos pelo tempo. Viu a figura de Jonas caminhar em direção ao rio, os ombros mais curvos do que quando entrara. A pouca distância, junto ao portão da igreja, Maria aguardava. Ela observava a saída do pescador e depois voltou o seu olhar para a janela da sacristia.

Tomás sentiu um nojo súbito de si próprio e daquela mulher que insistia em amá-lo. O que era o amor de Maria senão outra forma de silêncio exigente? Ela queria preencher o vazio de Deus com o seu próprio corpo, com a sua própria presença imperfeita. Mas para Tomás, não havia substitutos. Se o Criador do Universo se calava, nenhuma voz humana, por mais doce ou persistente que fosse, poderia quebrar aquela solidão.

Ele voltou à mesa e abriu o livro de orações. As páginas estavam amareladas. Ele tentou ler as palavras da oração da manhã, mas a sua visão estava turva. “Senhor, abre os meus lábios, e a minha boca proclamará o teu louvor.”

— “Mentira,” murmurou Tomás, fechando o livro com violência. “Tudo mentira.”

O silêncio na sacristia tornou-se, então, absoluto. Não era apenas a ausência de som; era uma presença palpável, um peso que parecia dobrar as vigas do teto. Tomás percebeu, com um horror gelado, que Jonas não tinha levado o medo consigo. Tinha-o deixado ali, impregnado nas paredes daquela igreja herética, no coração de um pastor que já não sabia como ser homem.


3

A luz que entrava pelas janelas da escola primária da aldeia era de um branco cirúrgico, uma claridade que não perdoava as fissuras nas paredes nem o desgaste no rosto daqueles que ali se encontravam. Tomás tinha caminhado desde o presbitério sob um céu de zinco, sentindo o ar gélido do Minho morder-lhe a face. Entrara na sala de aula como quem entra num tribunal. O cenário era uma encenação do Portugal de 1963: as carteiras de madeira riscadas por gerações de crianças, o mapa de Portugal e das suas “províncias ultramarinas” na parede, e, ao centro, sob o crucifixo de gesso, o busto de Salazar, cujo olhar de pedra parecia vigiar até os pensamentos mais íntimos.

Maria esperava-o. Ela tinha o cabelo apanhado de forma severa e o avental de professora, mas a sua postura não era a de uma funcionária do Estado. Era a postura de uma mulher que tinha colocado a sua alma num pedaço de papel e agora aguardava o veredito.

A carta de Maria, que Tomás levava no bolso do sobretudo, era uma ferida aberta. Nela, ela não falava de dogmas ou de liturgia. Falava da sua falta de fé em Deus e da sua fé absoluta no homem que tinha à sua frente. “Amo-te”, escrevera ela com uma caligrafia trémula, “e odeio o Deus que te rouba a alegria, o Deus que usas como um escudo para não me deixares entrar.”

Tomás sentou-se numa das carteiras infantis, o seu corpo de homem adulto parecendo grotesco e deslocado naquele mobiliário pequeno. Maria permaneceu de pé, junto ao quadro negro.

— “Li a tua carta,” disse ele, a voz desprovida de qualquer inflexão de ternura.

— “E?” perguntou ela, as mãos escondidas atrás das costas para ocultar o eczema que a ansiedade fazia latejar.

— “E o que esperas que eu diga, Maria? Que te agradeça por me lembrares da minha própria miséria? Que te ame por seres o espelho de tudo o que eu perdi?”

Maria deu um passo em direção a ele. A luz do sol de inverno, batendo de lado, revelava a textura da sua pele e o cansaço nos seus olhos. Para Tomás, ela não era uma mulher a ser amada; era um lembrete da sua decadência física. Ele comparava-a, involuntariamente, com a memória da sua esposa — uma mulher que ele idealizara como um ser de luz e harmonia, uma presença que nunca exigia, mas que apenas preenchia. Maria, com as suas manchas na pele, com a sua necessidade emocional, com a sua humanidade crua, era-lhe insuportável.

— “Tu usas a tua viuvez como uma cela de prisão, Tomás,” disse ela, a voz subindo de tom. “Achas que a tua dor te torna especial, que te aproxima de Deus. Mas a verdade é que estás apenas a tornar-te num homem seco. Tu não amas a Deus, porque não consegues amar o que está vivo. Tu só amas o que está morto e o que já não te pode desafiar.”

As palavras dela atingiram-no com a precisão de um chicote. Tomás levantou-se, a sua altura dominando o espaço exíguo da sala de aula. O ódio por si próprio, que ele vinha alimentando desde a manhã, transbordou finalmente. Mas não o direcionou para o Céu silencioso; direcionou-o para a mulher que cometera o erro de o querer salvar.

— “Queres saber o que eu sinto quando olho para ti?” perguntou ele, a voz agora um sussurro letal. “Sinto náusea. Sinto náusea da tua devoção, da tua persistência, da forma como me persegues com essa tua compaixão pegajosa. Tu falas de amor, mas o que tu queres é ser dona da minha agonia. Queres que eu precise de ti para que possas sentir que a tua vida tem sentido.”

Maria recuou, o rosto contraído como se tivesse sido esbofeteada. Mas Tomás não parou. Ele queria destruir o altar que ela tinha construído para ele.

— “Eu nunca te amei, Maria. Nem por um segundo. Acompanhei-te, deixei que estivesses perto, porque o meu egoísmo precisava de um público para o meu sofrimento. Mas cada toque teu, cada olhar de adoração, é um peso que me esmaga. Tu queres que eu te salve da tua solidão de professora de aldeia, mas eu não consigo sequer suportar a minha. Tu és feia para mim, Maria. Feia na tua necessidade, feia na tua pele doente, feia na tua insistência em querer um homem que já morreu por dentro.”

O silêncio que se seguiu foi diferente do silêncio da igreja. Era um silêncio humano, carregado de uma violência que nenhuma oração poderia purificar. Maria não chorou. Pelo menos, não imediatamente. Ela apenas o olhou com uma piedade que foi o golpe final na arrogância de Tomás.

— “Pobre de ti,” disse ela baixinho. “Pobre de ti, Tomás. Tu pensas que Deus se cala, mas és tu que Lhe cortas a língua. Tu matas tudo o que é vivo à tua volta para não teres de admitir que tens medo. Tens medo de mim porque eu estou aqui, sou real e exijo que vivas. É muito mais fácil amar um fantasma ou um Deus mudo do que amar uma mulher com eczema.”

Ela caminhou até à porta da sala de aula e abriu-a. O ar gélido do corredor entrou, trazendo o cheiro a lixívia e a pinho.

— “Sai,” disse ela. “Vai pregar o teu vazio aos bancos vazios da tua igreja. Vai dizer ao pescador que o mundo vai acabar. Tu já ganhaste, Tomás. Conseguiste ficar sozinho.”

Tomás saiu. Caminhou pelo corredor da escola, passando pelos desenhos das crianças pregados nas paredes — casas com fumo a sair da chaminé, famílias de mãos dadas sob um sol amarelo e radiante. O contraste entre aquela esperança infantil e a destruição que ele acabara de semear era insuportável.

Ao chegar ao pátio da escola, o sol de inverno estava no seu zénite, mas não aquecia. Era uma luz fria, que revelava cada pedra do chão, cada folha seca que o vento arrastava. Tomás olhou para as mãos. Eram as mãos de um pastor, mãos feitas para abençoar, para oferecer o conforto do espírito. Mas ele sentia-as sujas, como se o sangue do seu próprio caráter estivesse nelas.

Ele tinha acabado de realizar o seu próprio auto de fé. Tinha queimado a única ponte que o ligava à humanidade. Enquanto caminhava de regresso à igreja, a figura de Maria na janela da sala de aula permanecia gravada na sua mente — uma silhueta escura contra a luz branca, o símbolo de um amor que ele tinha rejeitado não por falta de mérito dela, mas por excesso de cobardia dele.

Deus continuava em silêncio. Mas agora, Tomás percebia que o silêncio de Deus era apenas o espelho do seu próprio grito sufocado. Ele tinha destruído Maria para não ter de se destruir a si próprio, mas ao fazê-lo, percebeu que não restava nada para salvar. O pastor anglicano, exilado numa terra que não era a sua, numa fé que já não sentia, era agora o único habitante de um deserto que ele próprio tinha criado.

Lá em baixo, no vale, o rio Minho corria cinzento e indiferente, levando consigo os segredos e as vidas de uma terra que parecia ter sido esquecida pelo tempo. E algures naquelas margens, Jonas, o pescador, tomava a decisão que daria a Tomás o seu último e mais terrível sermão.


4

A margem do Rio Minho, naquele ponto onde a corrente abrandava para lamber os lodos da margem, era um lugar de uma melancolia absoluta. No inverno de 1963, o rio não era apenas uma fronteira geográfica entre Portugal e a Espanha de Franco; era um organismo vivo, uma artéria de contrabando, de fugas noturnas “a salto” e de segredos enterrados na lama.

Tomás chegou ao local quando a luz da tarde começava a desfalecer, transformando-se num cinzento metálico. A notícia do suicídio de Jonas tinha percorrido a aldeia como um calafrio. O pastor encontrou um pequeno grupo de homens de negro, estáticos, como corvos sobre a areia molhada. Entre eles, dois guardas da GNR, com os seus capotes pesados e os mosquetões ao ombro, representavam a ordem austera e indiferente do Estado.

O corpo de Jonas estava deitado de costas, com as pernas ainda parcialmente submersas na água fria. O rio, que lhe dera o sustento durante décadas, tinha-o cuspido de volta, mas não antes de lhe apagar o fogo do terror. O rosto do pescador estava sereno, de uma forma que Tomás considerou quase insultuosa. Onde estava a angústia que ele lhe despejara na sacristia? Onde estava o medo da guerra ou do fim dos tempos? A morte tinha resolvido a teologia de Jonas com uma simplicidade brutal que o pastor não conseguia alcançar.

— “Chegou tarde, Senhor Pastor,” disse um dos guardas, sem retirar as mãos de trás das costas. O tom era carregado daquela desconfiança típica das autoridades para com o clero “dissidente” da Igreja Lusitana. “O homem já não precisa de orações. Precisa de um caixão e de um registo de óbito que não dê muito trabalho.”

Tomás não respondeu. Aproximou-se do cadáver. A humidade do rio subia pelas suas calças, mas ele não sentia o frio. Sentia apenas um vazio pneumático, uma ausência total de compaixão. Olhou para as mãos de Jonas, as mesmas mãos que horas antes apertavam o boné com desespero. Agora, estavam abertas, imóveis, numa postura de aceitação final.

— “Ele esteve com o senhor esta manhã, não esteve?” perguntou o outro guarda, aproximando-se. O olhar era inquisidor. Naquela época, qualquer perturbação da ordem — mesmo um suicídio — era vista sob o prisma da suspeição política. “Dizem que saiu da sua igreja mais transtornado do que entrou. O que é que lhe disse, Senhor Pastor? Falou-lhe de política? Da guerra?”

— “Falei-lhe de Deus,” respondeu Tomás, a voz saindo como um sussurro seco.

O guarda soltou um escarro curto para o lado.

— “Pois. Parece que Deus não foi resposta suficiente para ele.”

Tomás sentiu o peso daquela frase como uma pedra atirada ao peito. Ele era o culpado. Não porque não tivesse rezado o suficiente, mas porque tinha usado a sua crise de fé como uma arma contra um homem desarmado. Tinha cometido o pecado supremo de um pastor: tinha tirado a esperança a quem já nada tinha, deixando apenas o nada no seu lugar. E Jonas, sendo um homem prático da terra, tinha escolhido o nada definitivo do rio.

A GNR começou a organizar o transporte do corpo. Não havia pressa; no Portugal de 1963, a morte de um pescador era um evento estatístico, não uma tragédia nacional. Tomás afastou-se do grupo e caminhou ao longo da margem, onde os juncos secos estalavam sob os seus pés.

A paisagem do Alto Minho, que em tempos lhe parecera um jardim de Deus, revelava-se agora como um cenário de uma peça de teatro abandonada. As montanhas ao longe, envoltas em bruma, pareciam paredes de uma cela. O rio era um caminho que não levava a lado nenhum. Ele percebeu que o seu isolamento não era apenas religioso ou social; era ontológico. Ele era um estrangeiro na sua própria pele, um homem que falava uma língua — a da espiritualidade e do transcendente — que já não tinha referentes na realidade.

De repente, viu Maria. Ela estava parada a alguns metros de distância, junto a um salgueiro chorão. Tinha seguido o movimento, mas mantivera a distância, como uma sombra que se recusa a abandonar o corpo. O seu rosto, outrora transfigurado pela expectativa do amor, estava agora lívido, petrificado pela revelação da crueldade de Tomás na escola.

Eles não trocaram palavras. O olhar de Maria era agora o espelho mais terrível para Tomás. Ela não o olhava com ódio — o ódio seria um reconhecimento da sua importância. Olhava-o com uma profunda e silenciosa desilusão. Ela via-o agora como ele era: um homem pequeno, escondido atrás de paramentos e de uma angústia intelectualizada para evitar a responsabilidade de ser humano.

Tomás desviou o olhar. Não conseguia suportar a pureza daquela desilusão. Ele preferia o silêncio de Deus àquela acusação silenciosa de Maria. Deus, ao menos, nunca lhe respondera; Maria, com a sua mera presença, forçava-o a ver que ele era o arquiteto do seu próprio inferno.

O pastor ajoelhou-se na lama, não para rezar, mas porque as suas pernas já não sustentavam o peso da sua consciência. Levou as mãos ao rosto. O cheiro do rio, um cheiro a decomposição e a vida latente, inundou-lhe os sentidos. Lembrou-se de um versículo do Livro de Job: “Porque há esperança para a árvore que, se for cortada, ainda se renovará”. Mas ele sentia-se como uma árvore cujas raízes tinham sido envenenadas.

— “Senhor,” murmurou ele, por hábito ou desespero, “porque é que permitiste que eu me tornasse nisto?”

O único som que obteve de volta foi o bater rítmico da água contra os pilares de uma velha ponte romana próxima e o murmúrio distante dos guardas que carregavam o corpo de Jonas. O silêncio de Deus não era uma ausência de som; era uma indiferença cósmica que tornava qualquer sofrimento humano — a morte de um pescador, a dor de uma professora, a vacuidade de um pastor — numa nota irrelevante numa sinfonia de indiferença.

Tomás levantou-se, limpando a lama das calças com um gesto mecânico e inútil. A noite estava a cair definitivamente. As luzes da aldeia começavam a piscar, pequenas e frágeis contra a vastidão do escuro. Ele tinha de voltar para a igreja. Tinha de se preparar para o próximo culto. A máquina da religião tinha de continuar a moer, mesmo que não houvesse grão para transformar em pão.

Enquanto caminhava de volta, sentiu que a morte de Jonas tinha selado algo dentro dele. A dúvida já não era um processo; era uma conclusão. Ele já não era um pastor à procura de Deus; era um funcionário do sagrado que tinha descoberto que o escritório estava vazio. E, no entanto, a ironia final era que ele não tinha para onde ir. Estava preso àquela igreja, àquela aldeia, àquela vida, como um condenado à sua própria cela.

Ao longe, o sino da igreja católica tocou as Avé-Marias. Era um som triunfante, seguro, que parecia zombar da sua pequena paróquia herética e do seu pastor derrotado. Tomás apressou o passo, fugindo da luz das estrelas que começavam a furar as nuvens — luzes de mundos mortos que, tal como a sua fé, continuavam a brilhar muito depois do fogo se ter apagado.


5

A noite fechara-se sobre o vale do Minho com a densidade de um sudário. No interior da Igreja de São Tiago, a luz das velas vacilava, projetando sombras agigantadas nas paredes de granito, como se os fantasmas de todos os que ali tinham rezado em segredo desde o século XIX se tivessem reunido para o ato final. O cheiro a cera derretida e a pedra húmida era a única presença sólida num espaço que parecia estar a ser devorado pelo vazio.

Tomás encontrava-se na sacristia, paramentando-se para o culto da tarde. Os seus movimentos eram lentos, coreografados por uma memória muscular que já não precisava do consentimento da alma. A estola sobre o pescoço parecia uma corda; a túnica branca, uma mortalha. Ele evitava olhar-se no espelho de moldura carcomida, temendo encontrar o rosto de Jonas ou, pior, o seu próprio rosto despido de qualquer máscara divina.

A porta da sacristia abriu-se com um chiar que feriu o silêncio. Era Alpedrinha, o sacristão e organista, um homem cujo corpo fora castigado pela poliomielite na infância, deixando-o com uma coxeadura severa e um olhar de uma lucidez desconcertante. Alpedrinha não trazia o medo de Jonas nem a exigência de Maria; trazia apenas a resignação de quem convive com a dor como se fosse um animal doméstico.

— “Não está ninguém na nave, Senhor Pastor,” disse Alpedrinha, limpando as mãos ao avental escuro. “Apenas a senhora professora. Os outros… bem, o suicídio do Jonas foi o prego final. Estão todos na igreja lá de cima, a pedir perdão pelo pecado do vizinho. Dizem que a nossa terra atraiu o demónio.”

Tomás parou, com os dedos num botão da batina.

— “Não me admira. O medo é o melhor pastor do mundo, Alpedrinha. Conduz as ovelhas mais depressa do que qualquer amor.”

Alpedrinha sentou-se num banco de madeira, observando o pastor com uma curiosidade quase clínica.

— “Sabe, Senhor Pastor, tenho pensado muito na Paixão de Cristo. Não naquela que os padres católicos pintam, com o ouro e as flores, mas na Paixão real. No abandono. O sofrimento físico de Cristo… isso foi o de menos. Milhares de homens morreram na cruz. O que dói na leitura daquela noite é o silêncio. Os discípulos adormeceram. Deus calou-se. E Cristo ficou ali, sozinho, a perceber que a Sua mensagem tinha sido mal interpretada, que o Seu sacrifício podia ser em vão. ‘Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?’”

Tomás virou-se para ele, atingido pela profundidade daquela observação vinda de um homem que ele sempre considerara apenas um acessório da liturgia.

— “Esse é o único Cristo em que consigo acreditar, Alpedrinha,” continuou o organista. “O Cristo abandonado. O Cristo que descobre que o silêncio é a única resposta. Se Ele sentiu isso, quem somos nós para exigir clareza? A fé não é a ausência de dúvida; é o que sobra quando a esperança morre e nós, ainda assim, decidimos tocar o órgão.”

Tomás sentiu um arrepio que não vinha do frio. A teologia de Alpedrinha era uma teologia de sobrevivência, despida de consolo, mas dotada de uma dignidade feroz. Era o eco perfeito para o seu próprio deserto.

— “Vai para o órgão, Alpedrinha,” ordenou Tomás, a voz recuperando uma autoridade seca. “Vamos começar o serviço.”

— “Mas para quem, Senhor Pastor? Só lá está a Maria.”

— “Isso não importa. O ritual não é para os homens, nem é para Deus, se Ele não ouve. O ritual é para manter a ordem no meio do caos. Vai.”

Tomás entrou na nave da igreja. Maria estava sentada exatamente no mesmo lugar da manhã. A sua figura era uma mancha escura contra o cinzento das lajes. Quando Tomás passou por ela em direção ao altar, sentiu a pressão do olhar dela — já não era um olhar de adoração, mas de uma aceitação dolorosa. Ela estava ali para testemunhar a sua queda ou a sua persistência; era a sua única testemunha num mundo que já o tinha esquecido.

Alpedrinha começou a tocar. O órgão da Igreja Lusitana, pequeno e algo desafinado, soltou um som asmático que preencheu o espaço. A música era uma composição simples, mas naquelas mãos ganhava uma urgência quase violenta. Era o som de um Portugal profundo, de uma resistência silenciosa contra o esquecimento.

Tomás subiu os degraus do altar. À medida que se aproximava do crucifixo, a imagem de Cristo parecia ganhar uma nova dimensão. Já não era o ídolo mudo que o atormentara; era, como Alpedrinha sugerira, o companheiro de abandono. Tomás percebeu que o seu erro tinha sido procurar uma resposta que pusesse fim ao sofrimento, quando o sofrimento era a única coisa que o ligava à realidade da existência.

Ele voltou-se para a nave vazia, onde Maria permanecia como a personificação de toda a humanidade que ele tinha ferido. Ele tinha-lhe dito que ela era feia, que a odiava, que ela era um fardo. Mas ali, sob a luz ténue das velas, ela era a única coisa real. O seu amor persistente, apesar da crueldade dele, era o milagre que ele se recusava a ver por estar demasiado ocupado a procurar um sinal no céu.

Tomás abriu a boca para falar. A garganta estava seca, o coração batia como um pássaro encurralado. Por um momento, pensou em descer do altar, tirar os paramentos e sair pela porta fora, de mãos dadas com Maria, deixando para trás a igreja, o dogma e o “silêncio de Deus”. Mas o peso da tradição, do dever e da sua própria incapacidade de ser outra coisa que não um mártir da sua própria angústia, segurou-o.

— “Santo, Santo, Santo é o Senhor, Deus do Universo,” começou ele.

A sua voz não era triunfante. Era uma voz que carregava o peso de Jonas morto no rio, das crianças que partiam para a guerra em Angola, do desespero de Maria e da sua própria vacuidade. Mas era uma voz que continuava.

Maria baixou a cabeça e murmurou a resposta. O diálogo entre os dois, naquele cenário de desolação, era a única liturgia que restava. Não havia Deus para ouvir, não havia comunidade para se edificar, não havia futuro para aquela paróquia condenada ao desaparecimento sob a hegemonia de um regime e de uma fé que não toleravam a diferença. Havia apenas um homem e uma mulher, unidos pela dor e pela incapacidade de se abandonarem, cumprindo um rito que tinha perdido o significado mas mantido a sua necessidade.

O sol de inverno já se tinha posto há muito. Lá fora, a noite minhota era um oceano de escuridão onde o rio corria, indiferente às orações humanas. Dentro da igreja, Tomás continuava o serviço. Ele tinha aceitado o seu destino: seria o pastor de um Deus que se calara, o guardião de um fogo que já não aquecia, o companheiro de uma mulher que ele não sabia como amar, mas que não podia deixar de destruir.

A última nota do órgão de Alpedrinha extinguiu-se, deixando um vácuo sonoro que parecia latejar. Tomás permaneceu de braços abertos, numa imitação inconsciente da cruz.

— “Ide em paz, e o Senhor vos acompanhe,” finalizou.

Ele sabia que o Senhor não ia a lado nenhum. Sabia que a paz era uma impossibilidade. Mas na repetição das palavras, na manutenção da forma, Tomás encontrou a única redenção que lhe era permitida: a coragem de continuar a representar o seu papel num teatro onde o autor tinha abandonado a sala, mas onde as luzes, por um estranho capricho, ainda se recusavam a apagar.